quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Não quero saber

Eu nem quero saber se vocês,
meus iguais, não são aqueles tais
dos quais tanto falam as garotas banais.

Eu já nem quero dizer,
o quanto agredeço a presença,
e essa alegria intensa que me trás.

Por que do jeito que são,
defeituosos e disformes,
me saceiam a fome
de sentimentos vitais.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Acorrentada

Torcendo os meus sentidos,
atraindo os meus olhares.
Esses lábios, esses sorrisos,
me chamam pra me devorarem.

Cala a boca, engole a minha.
Fica quieta nos meus braços.
Segura o ar, solta a voz,
se amarra aos meus laços.

Fecha os olhos, torce a boca,
enrubra a face e aquece a pele.
Momentos sem razão, coisa pouca,
um prazer que de tanto me fere.

Sem amor, sem piedade,
só escravidão da minha vontade.
Sem paixão, longe da verdade...
Você, minha linda...
Minha prisão e liberdade.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

MFC

Se você ta achando que o título desse post é sigla de nomes de pessoas e que ele vai falar de sentimentos e bla bla bla, para de especular que você errou feio.

MFC = Minha Freaking Cabeça xD

E a verdade é que eu não vou falar de nada nesse post, pq minha freaking cabeça esta muito perturbada agora pra isso. =)

Então au revoir...*-*

Férias

Quero uma taça cheia,
onde eu possa me afogar.
Quero fugir de casa,
Ver as estrelas
e me jogar no mar.

Quero uma cama macia,
onde eu possa me jogar.
Dormir pra sempre,
deixar passar os dias,
sem o mundo parar.

Férias dessa vida,
férias do que é meu.
Sem ninguém pra repartir,
não ganhei nada,
mas nada me perdeu.

Coisas pra fazer...

-Inscrição pra vestiba..
-Pagamento da cultura
-Confirmação da data de prova
-Tabela de quimica
-Achar um emprego
-Estudar pro vestiba
-Trabalhos de ADM
-Comprar cartucho de tinta
-Limpar os quintais...
-Decorar falar do roteiro..

Conclusão: FO#$% DE VEZ!

domingo, 7 de setembro de 2008

Final

Último capítulo, um final sem final, mas é assim mesmo. Eu queria dar um fim para o Korone, mas ainda não consegui pensar num closure pra ele o que acabou deixando as coisas desse jeito, o Ângelo e a Beau ficaram no limbo também, provavelmente fazendo alguma coisa indecente...xD Então vamos lá...

17. Controle

Quanto tempo havia se passado? Quantas semanas, quantos meses, sem que nada parecesse fora do lugar, mas então chegava o fim do ano e todos agiam como se o mundo fosse acabar e começar de novo. Mas tudo era sempre a mesma coisa, tudo continuava igual e comum, transcorrendo naturalmente tão claro quanto um rio de água pura. A porta que levava para a varanda estava aberta, deixava entrar o vento norte junto com as últimas luzes do sol poente, as mãos apertavam os lençóis e os olhos enxergavam tudo em formas diferentes do que se acostumara, respirar era difícil, mais difícil ainda ouvir alguma coisa que não seu coração batendo.
-A... zure... – estava tentando falar fazia algum tempo, mas sempre que tentava dizer algo ele lhe cobria os lábios com beijos. – Noi...te...
-Eu avisei pra você não avisei? Antes das aulas acabarem... – ele sorriu recostando a testa na dela, segurando seus braços, sentia a pele dela ferver sob a sua. Quanto tempo havia se passado? Quantas esperas? – Eu não vou mais te deixar fugir...
-Azure...
E não deixou mesmo, a cada segundo que passava era uma luz a menos atravessando a varanda até o quarto, engolia em seco e virava o rosto para não ver o sangue corrente sob a pele dele. Uma mistura de satisfação com desespero, mordeu os próprios lábios com tanta força que acabou fazendo um pequeno corte que tingiu seus lábios, um som saindo do fundo da garganta enquanto todo controle que tinha era retorcido e empurrado pelo vento pra algum lugar longínquo. Ergueu o rosto, os lábios vermelhos, as presas a mostra na escuridão a procura de lábios que pudesse cortar, a procura de sangue que pudesse beber. Quanto tempo havia passado? Não conseguia mais esperar, não conseguia se controlar. Cravou os dentes com gosto, cortando lábios macios, os olhos fechados no deleite do momento, apenas algum tempo depois conseguiu abrir os olhos recuperando um pouco da razão, não era o rosto de Azure que lhe olhava por trás do beijo ensanguentado, Azure estava com a cabeça deitada em seu peito, o momento congelou pra depois começar a rodar mais uma vez.
-O que está tentando fazer? Matar seu namorado? – Korone perguntou com um olhar maldoso, Mika deu um grito se jogando contra a cama novamente. Azure se levantou soltando um suspiro profundo. – Desculpe interromper numa hora tão importante, Azure.
-O que você está fazendo aqui? – Azure perguntou irritado, será que só ela estava extremamente envergonhada quase explodindo de tão vermelha? Mas por outro lado ela sentiu um enorme alivio, Korone sempre aparecia na hora certa/errada.
-Eu vim me despedir, vou numa viajem de formatura. Pra ser honesto nem esperava um beijo de despedida tão bom. – ele riu a deixando vermelha de vergonha e Azure púrpura de raiva.
-Viajem? – Ela se sentou na cama, Azure parecia começar a se conformar que o momento tinha se perdido, por outro lado se exaltava com a visão de que aquele inconveniente iria sumir por algum tempo, meses atrás ele fez as pazes com ela e a intromissão de Korone era tão natural que o irritava.
-Boa viajem... – Azure desejou apesar de no fundo Korone saber que ele queria dizer, vá pro inferno.
-Mas...
Ela tinha pensado em dizer várias coisas, coisas como você não pode ir ou então por que não vamos todos? Ter Korone por perto era muito confortável uma vez que não precisava se preocupar com comida, sem falar que eram amigos e olhando para Azure sentindo seus lábios ainda encharcados de sangue imaginava o que podia acontecer se Korone não estivesse por ali.
-Não se preocupe, eu não vou matar ninguém nas férias. – Korone falou fazendo cafuné na cabeça de Mika, a verdade é que as preocupações dela não tinham nada a ver com o que ele ia fazer e sim o que ia acontecer com ela mesma, vampiros egocêntricos. Depois se virou para Azure – Boa sorte!
-Korone! – mas ele não respondeu o chamado dela, simplesmente vôou pela janela. Mika baixou os olhos, o rosto corado numa mistura de vergonha e desolação.
-Mika... – Azure a chamou acariciando sua mão.
-Eu não posso fazer isso...
Eram as palavras que ele temera todo aquele tempo que ficara junto dela, um murmúrio triste e definitivo de alguém que tem certeza de algo, mesmo que não gostasse desse algo. Ele a abraçou, mas ela não retribuiu o abraço, o calor do corpo dela foi baixando até se tornar um soluço gelado. Ele queria falar alguma coisa, mas não conseguia pensar no que falar. Se sentia rebaixada, ela só pensava nela mesma, até mesmo Korone que falava de si com pompa pensava nos outros, ela não pensou até agora. Ia sentir sede, ele não ia estar lá, apenas Azure. Não podia fazer aquilo.
-Eu não posso sem o Korone aqui. – ela falou segurando as lágrimas, seus olhos vermelhos brilhavam na escuridão.
-Eu estou aqui, Mika. Será que só eu não sou o bastante pra você? – Azure perguntou com uma pontada de inveja.
-É justamente por isso! – Ela respondeu o afastando, ele ainda não se acostumara em como ela ficava forte quando a noite caía – É justamente por você estar aqui. Eu não quero mais nada, só você mais e mais...
-Então fica comigo. – ele falava sério, mas esse não era o problema. O problema era aquele olhar suicida digno de qualquer piloto kamikaze, ela queria pensar nele, queria evitar machucar ele.
-Eu fico e quanto mais eu fico, mais eu quero nunca mais ir embora. Até que os meus sentidos se perdem. – ela se aproximou do rosto dele com um sorriso de presas grandes, um arrepio subiu pela coluna. – E então eu perco o controle.
Ela o derrubou, o segurando como ele fizera até um tempo atrás, ele sentiu na pele como era estar indefeso e preso sob a vontade de outra pessoa. A mistura de desespero com satisfação, os sentidos que giravam num redemoinho que parecia querer afogá-lo. Ele não conseguia se soltar, por mais força que fizesse a dela era maior, o teto parecia estar girando e as luzes dos carros que passavam na rua apenas o faziam achar que tinha provado alguma droga. Horas depois ele ainda não teria se recuperado, nenhum corte sobre sua pele, mas aquela estranha sensação de paz o lembrava que a guerra era inevitável.
-Eu não confio em mim quando eu estou com você, Azure... – ela murmurou deitada sobre o peito dele, a respiração fraca como de quem está prestes a adormecer, dois olhos âmbar na escuridão.
-Você não pode controlar tudo, Mika. Eu não vou a lugar nenhum...
-Você vai se arrepender disso um dia.
-Mas hoje não.- – um dia, um dia qualquer que ainda não chegou e ele não fazia idéia de quando iria chegar.

sábado, 6 de setembro de 2008

16. Entre nós

O resultado de ficar três dias sem comer foi deixar Korone a beira da inconsciência, naquele dia Azure teve que carregá-lo até o quarto ou ele teria ficado jogado no chão. Mika se sentiu culpada e passou a noite velando o sono dele, mas dali em diante todo o mundo voltou a girar no ritmo costumeiro, naquela estranha sensação de estar fingindo que nada havia acontecido, tudo parecia pacifico. Korone logo se recuperou e voltou a sua vida de sempre também, refeições no anoitecer e namoradas que nunca duravam sequer uma semana.
-Korone? Korone! – Mika o procurava, uma vez que ele já devia estar em casa. Bateu na porta do quarto dele e ela abriu sozinha – Korone? – ele estava sentado na cama olhando pela janela, o vento fazia a cortina se mover como um fantasma. – Achei que você tinha saído por um instante... – Mika se sentou na cama – Tem algo errado? Você faltou no treino de futebol.
-Eu tenho algo pra fazer, só estava esperando você pra pedir pra não me esperar acordada, querida. – ele respondeu em tom de deboche.
-Então tudo bem...
Tudo estava normal entre eles, não odiava aquele sorriso detestável e nem as ações dele, não odiava o fato dele sempre tentar irritar Azure, não conseguia odiar ele por que em momentos como aquele ele não sorria, mas seus olhos brilhavam. Ela ia se levantar quando ele a puxou a trazendo pra perto num abraço. A respiração dele no seu ombro a fez notar que ele começara, mas não era só aquilo, os braços dele também a apertavam com carinho. Ignorou isso, esperando de olhos fechados sentindo a pele esquentar.
-Cá entre nós, eu não me importo de desmaiar uma garota por ela ficar fraca demais ou nada disso... – ele murmurou com uma risada sem graça – Quando eu provei você da primeira vez, achei que era a mesma coisa... O mesmo gosto doce sem graça de todas as garotas. Eu só aceitei esse acordo, porque depois do por do sol, você tem esse gosto doce e amargo...
-Achei que estava com fome... – Mika respondeu começando a se levantar, mas ele a segurou.
-Só mais um pouco. – Ele pediu como uma criança que não quer acordar.
-Porque me abraçar? Tenho certeza que tem uma fila te esperando pra isso...
-Eu não estou fazendo nada demais, seu namoradinho não vai se incomodar. – Korone respondeu sem responder, ela segurou os braços dele e se resignou àquela vontade.
Foi a primeira vez, que sentiu os lábios dele encostarem na sua pele, ele não estava tentando se alimentar, apenas beijando seu ombro e fechando os olhos. Korone não queria preencher seu estomago e sim sua alma, Mika se levantou depois disso foi até a porta sem olhar para trás até ouvir um farfalhar. Se virou para um Korone de asas negras e marcas que lembravam tatuagens.
-Aquele dia você sorriu... – ele comentou dando risada.
-Que dia?
-Quando eu lhe trouxe no colo, pouco antes de desmaiar de novo. Você sorriu pra mim e é por isso que eu prefiro você que as outras...
Ele pulou pela janela depois de ver o sorriso dela, não num salto de despedida, apenas tinha algo pra fazer. Algo que não tinha nada a ver com as garotas em fila ou a garota que não tinha a menor intenção de correr atrás dele, apenas o fato de Mika não estar interessada nele já o deixava interessado nela. Infelizmente havia um pequeno obstáculo ainda maior entre eles, Azure era quem ela amava por todos os motivos e por motivo nenhum e ele não tinha problemas com isso exceto que aquilo poderia invariavelmente acabar muito mal. Pousou num arranha-céu e desceu pelas escadas de emergência até o andar que tinha que entrar, as asas sumiram, mas as marcas ficaram. Tinha a chave do apartamento no seu bolso, quando girou a porta lá estava quem ele menos queria ver.
-Esconda já essas marcas! Quer me matar de desgosto?! – uma voz de mulher gritou.
-Desculpe, mãe. – Korone escusou-se fazendo os tribais sumirem, marcas de pecado, fundas como cicatrizes que faziam sua mãe o mandar esconder-se num canto toda vez que alguém entrava na casa. Sempre foi assim quando era pequeno, ficava trancado no armário para que ninguém visse o que ele era. – Tinha algo pra me falar?
-Eu e seu pai vamos nos mudar. – a mulher de longos cabelos negros falou sem sequer olhar nos olhos dele, era uma humana comum e de extrema paranóia que escondia tudo de todos.
-Ele não é meu pai... – ele nunca conheceu o próprio pai que era um monstro, sua mãe não sabia até ele nascer, cheio de tatuagens negras pelo corpo. O escondiam com um lençol cobrindo um berço quando era um bebê, dentro do armário enquanto era criança e depois que cresceu ele próprio saiu da casa morando em pensões de fundo de quintal ou nas ruas quando precisava.
-Ele é meu marido! Eu vou pra outra cidade e não quero meu filho sozinho por aí aprontando! – ela falou indicando uma mala com um gesto da cabeça.
-Desculpe, mamãe. Mas seu filho está sozinho por aí faz anos e não é agora que eu pretendo voltar pra casa... – Korone se aproximou da mulher, ela deu um passo para trás como quem tem medo, o rosto dele estava fechado – Eu já cansei de você ter medo de mim e me jogar num canto pra que ninguém mais veja.
-O que você vai fazer? – ela perguntou se encolhendo contra a parede. – Vai assustá-lo? Vai ficar entre nós? Vai me matar?
-É por essas que monstros não deviam se envolver com humanos, vocês não entendem mesmo... – Korone rangeu os dentes e se inclinou na direção dela, a mulher se encolheu, ele suspirou e deu um beijo na testa dela – Seja feliz, mamãe. Pode fingir que eu nunca nasci como sempre fez quando um namorado seu vinha pra casa.
-O que você vai fazer?! – ela insistiu na pergunta antes dele atravessar a porta.
-Tentar ser feliz também... – ele respondeu olhando pra trás com um sorriso – Sabe mãe... Você sempre desviou os olhos de mim ou fez caretas na minha direção, mas eu conheci alguém que mesmo me vendo assim... – as asas dele se abriram e as marcas negras voltaram a aparecer, a mulher fez o sinal da cruz – Mesmo assim ela sorriu pra mim. Um dia eu queria te ver sorrindo também.
Ele foi embora, a porta que bateu atrás dele encerrava as lembranças de uma mulher que sempre olhava por cima do ombro, sempre desviava quando alguém chegava perto, uma mulher que sempre tinha medo, principalmente dele. Deu uma risada sem felicidade alguma enquanto subia as escadas até o topo do prédio, lembrou de sua infância. Tinha corrido para o topo daquele lugar, cansado de ficar escondido nas sombras, as marcas negras que cobriam seu corpo na noite escura, a imensidão lá embaixo. Se jogou como se jogou quando ainda era uma criança, pela segunda vez, ao invés de acabar no concreto lá embaixo planou no escuro. Se nem sua mãe não podia lhe oferecer nada, não tinha que pedir nada a ninguém.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

15. Mais nada importa

Foram três longos dias, de um silêncio interminável e de um jejum que nenhuma palavra de Korone a fazia quebrar, sempre fora branca, mas agora estava pálida o bastante para seus cabelos ficarem ainda mais vermelhos, os lábios quase roxos fechados e respostas meramente gestuais. Mesmo depois de Beau lhe estapear continuava quieta, olhando ocasionalmente para o anel em sua mão que não queria tirar, a verdade era que não sabia se tinha ou não que tirá-lo. Desde que Azure saíra de sua casa depois de Korone lhe explicar o que significava realmente beber sangue de alguém ela não o vira.
-Mika, se você não comer nada vai acabar caindo desmaiada. – era a voz de Korone, a respiração de Korone. Conhecia aquela respiração morna que repousava sob a sua pele e a aquecia enquanto ele mastigava sua vida.
De fato mastigava, mastigava sua vida como um chiclete e depois cuspia pro lado. Tinha vontade de odiar ele por ter dito tudo aquilo, mas ele só disse a verdade e ela... E ela realmente tinha andando pensando num jeito de afastar Azure antes que ele acabasse se machucando, antes que ela perdesse o controle. Mas agora que ele estava seguro longe dela, ela preferia tê-lo em perigo por perto. Se antes o calor era uma tentação, aquele frio era um tormento que ela não gostava de aguentar, toda a naturalidade da vida cotidiana fora embora, as coisas pareciam fora do lugar.
-Mika!
Mas não respondeu o chamado, sequer tinha forças suficientes para notar que ele próprio parara de se alimentar dela. Conclusão óbvia, seria como roer ossos ao invés de comer o churrasco, ela estava tão fraca que a mera respiração dele podia fazê-la perder os sentidos. Menos que isso, bem menos, sequer andava em linha reta pelos corredores, quando mais pelas ruas, o sol a deixava tonta. Ouviu o ranger das correntes, os balanços com seus barulhos irritantes de vai e volta, caiu desacordada.
-Mika... Mika!
Conhecia aquela voz, também conhecia aqueles braços. Seus olhos que se abriram por poucos segundos foram capazes de ver apenas vultos que a encaravam, vultos masculinos e um vulto barulhento feminino que seu rosto sorriu por acidente ao reconhecer Beau. O que eles estavam fazendo ali? O sol iluminava fios de ouro, era Ângelo de pé ao lado da succubus, mas havia mais, ali ao seu lado, aquelas braços.
-Sua idiota... – Korone costumava lhe chamar assim, mas aquela era a voz do Azure.
Os vultos sumiram na escuridão dos seus olhos fechados, ela foi carregada até em casa, sabia disso. Já não era a primeira vez, mas da última estava sem comer a bem menos tempo, não estava em sua cama, estava no sofá, um toque familiar lhe fazia carinho atrás da orelha enquanto outro lhe estava entre as suas mãos. Sem querer murmurou no sono: fica aqui, por favor, fica aqui. Azure não conseguiu dizer não para aquela figura frágil na sua frente, Beau e Ângelo a deixaram aos cuidados dele e foram embora.
-Você me odeia? – ela perguntou abrindo apenas pequenas frestas do olhar.
-Não, Mika. – Ele respondeu engolindo em seco. – Há quanto tempo você está sem comer?
-Quem te contou?
-Se você não beber sangue vai acabar morrendo. – Ele completou sem responder.
-Não. Eu só vou dormir e continuar dormindo... – ela corrigiu.
-Eu vou chamar o Korone... – Azure falou se levantando, mas ela o segurou com as duas mãos.
-Eu não quero o Korone, eu quero... você, Azure. – ele teve a impressão que ela choraria, mas seu corpo não tinha energia nem pra fazer lágrimas. – Se eu preciso parar de beber sangue pra poder continuar com você, eu vou parar. – ela esboçou um sorriso.
-Sua idiota, eu não ligo pra nada disso! – ela não entendeu, suas mãos o soltaram por acidente. Ele parecia bem mais bravo do que quando Korone falou tudo aquilo. – Se você tem que beber sangue eu quero que você beba até esquecer disso, porque assim você pode ficar comigo.
-Mas... Quando eu bebo...
-Eu não me importo o quanto você gosta disso, ou se o Korone também gosta. Eu não me importo se ele age como se você estivesse me traindo e mesmo que estivesse isso é problema, meu não é? – ele voltou a se abaixar, encostando a testa contra a dela – Mais nada importa pra mim, desde que você me deixe ficar do seu lado, Mika.
-Então por que...
-Porque eu não sabia mais se você queria ficar comigo ou com ele, eu achei que se gostasse de mim ia vir falar comigo... Mas você não veio, ao invés disso ficou achando que eu estava bravo e quase se matou no processo!
-Mas você está bravo...
-É claro que eu estou bravo! – ele acabou rindo de tão nervoso – Depois a gente discute, você precisa se alimentar...
-Mas...
-Cala a boca e ouve seu namoradinho. – era a voz de Korone, ele estava sentado na escada escutando tudo. Não trocou nem meio olhar com Azure antes de estender o pulso para Mika.
Ela vacilou olhando para Azure, esperava que ele desviasse o olhar se recusando a aquela cena, mas ao invés disso ele sorriu. Com carne entre os dentes, sangue escorrendo e um braço em suas mãos, ao mesmo tempo que seu corpo aquecia o seu rosto congelava com lágrimas que caíam. Se conseguisse falar enquanto comia, teria dito: obrigado.

14. Calor

A despedida era sempre uma mistura de pesar e alivio, em pleno inverno ela não conseguia usar blusas quando saía com Azure e logo que chegava em casa entrava debaixo de um chuveiro gelado. Não tinha nada a ver com o que fazia ou deixava de fazer, ou talvez tivesse tudo. Dessa vez ele não tinha ido embora, ela estava muito quente e aquilo para as pessoas comuns era febre, ela tentou dizer que estava tudo bem, mas ele insistiu. Saiu do banho com passos lentos, passando com um vestido leve por um Korone de calça comprida e moletom, ele a observou de longe descer as escadas até um namorado preocupado.
-Você ainda está fervendo... – Azure falou encostando a testa na dela.
-Não é nada, eu vou ficar bem logo. – Mika tentou explicar, sentia a respiração dele no seu rosto e isso era evocativo.
-Eu vou pegar um pouco de gelo pra você... – ele comentou indo até a cozinha, já era da casa, entrava e saia, conhecia todos os cômodos daquele lugar enorme, mas ele não conseguiu sequer sair da sala de entrada.
-Ela não precisa de gelo... – era a voz do Korone, ele havia descido as escadas atrás dela, chegou com passos lentos pela retaguarda e num quase abraçou colocou o braço despido do moletom na frente do rosto dela. – Você não reparou ainda, que quando ela fica quente assim é por que ela quer sangue?
Ele não tinha reparado, era verdade, e olhava a cena dela segurando o braço dele como uma criança que tenta compreender um animal devorando o outro. Os olhos dela ainda estavam abertos e reluziam, o âmbar virando escarlate na sua frente, o rosto corando e as pupilas dilatadas. Não, aquilo não era o que ele esperava ver, não parecia nada com a Mika trêmula que ele vira pela primeira vez se alimentando. Aquela expressão era de deleite. Ele não tinha reparado, para ele até aquele momento, aquela temperatura, não tinha nada a ver com sangue ou fome, era algo igualmente primitivo e animalesco, era antecipação... Por um momento achou que estava errado, mas vendo aquilo, suspeitou que pudesse ser os dois.
-O seu sangue deve ter um gosto muito bom, Korone. Eu só vejo ela com essa expressão... – decidiu ficar quieto, porque falaria que só via aquele rosto poucas vezes, quando estava a sós com ela? Não era da conta dele o que eles faziam. Mas se sentia ameaçado, por aquele homem de sorriso despreocupado.
-Azure... – Mika murmurou pensando em falar algo, mas não tinha certeza ainda do que falar. Já estava com ele há certo tempo, tudo parecia tão natural e comum que naqueles momentos extraordinários, não haviam palavras que se encaixassem.
-Não tem nada a ver comigo. – Korone respondeu – É a sua namorada... Ela provavelmente vai ficar brava comigo, mas já que nós dividimos o tempo dela acho que eu posso dividir isso com você...
Do que ele estava falando? Ele estava com uma expressão maldosa e ela sentiu o calor em seu corpo sumir por completo dando lugar ao gelo do medo e da apreensão. Ela temia que soubesse o que ele ia falar, talvez ele já soubesse, como Ângelo sabia... Azure ia saber também? O sangue de seu pai pulsava nas suas veias, queria fazer ele calar a boca, mas tudo que conseguiu foi assistir Korone sentar folgadamente no sofá.
-Você sabe o que é a paixão dos vampiros? Eu nunca soube muito sobre eles ou me interessei, mas depois de morar com uma você acaba descobrindo algumas coisas sozinho.
-O que você acha que eu devo saber sobre a minha namorada que eu já não saiba, Korone? – Azure parecia bravo, ela entendia, Korone achava divertido. E assim os sentimentos giravam como um redemoinho que mais tarde afogaria alguém.
-Me interrompa se eu estiver errado, Mika. Quando um vampiro bebe o sangue de uma pessoa pela primeira vez é doloroso, muito doloroso. É como um mecanismo de defesa que ensina as outras pessoas a se afastarem. – ele lembrava bem da primeira vez que ela o mordeu, não tinha sido nada agradável – No entanto da segunda em diante eu não apenas me acostumei com isso e os ferimentos saravam mais rápido...
-Korone... – Mika murmurou o nome dele de cabeça baixa.
-Além dessas pequenas vantagens e o fato do sangue de um monstro, assim como a energia de um monstro ser mais nutritiva eu me alegro em dizer que é uma sensação de puro êxtase. – ele sorriu, o sorriso canalha que tenta dizer aos outros que eles são idiotas.
-Que bom pra você. – foi tudo que Azure respondeu começando a andar na direção de Mika que continuava olhando o chão.
-Pra nós. – Korone corrigiu.
-Nós? – Azure franziu o cenho.
-Ela até que se controla bem, eu admito. Mas você viu os olhos dela, namoradinho? Eu não sou o único que tenho bons momentos com isso. – Azure não falou nada, cerrou os punhos e ficou calado. Mika não conseguiu interromper, ele não estava errado. Korone parecia maravilhado com a atual situação que causou – Não se preocupe, eu tenho certeza que se um dia ela deixar escapar é o seu nome que ela vai gritar. Azu...
Pode-se dizer que o soco veio do nada, mas naquele caso vinha de tudo. Das provocações de Korone e dos punhos cerrados de Azure que só queria que ele calasse a boca, em resumo era o mesmo que dizer para ele que estava sendo traído desde sempre, por mais que no sentido literal humano não estivesse sendo. Era só um jogo de palavras e significados, Korone não retribuiu o golpe, apenas massageou o rosto onde o outro havia socado.
-Eu também tenho outra teoria. Essa relação de sangue e dor deve ser algo cíclico, pelo que eu tenho observado nos últimos tempos...
-Porque você não cala a boca? – Azure já ia dar outro soco quando Mika o segurou com um abraço. – Mika...
-Como eu estava dizendo, sócio. Ela sente prazer quando bebe sangue, mas tem o outro porém... Essa febre é porque quando ela sente prazer, ela tem vontade de beber sangue. E eu notei tudo isso depois que vocês começaram a sair juntos, não é interessante?
-O que tem de interessante nisso? Você é sádico por acaso? – Azure perguntou rangendo os dentes. Ele acabou se soltando e saindo da casa, Konore deu uma risada sem alegria e se deitou no sofá ainda massageando onde levou um soco.
-Porque você fez isso? – Mika perguntou, o corpo gelado e tremendo.
-Era o que você queria, não era? – ele respondeu. – Cada dia você o afastava mais cedo, se trancando no chuveiro gelado tentando se controlar. Procurando uma desculpa pra manter ele longe antes que você acabasse fazendo o que não queria. Agora você não precisa de uma desculpa, eu já dei motivo suficiente pra ele não se arriscar. Mika...
-O que?
-Você sabe melhor que eu... Se você perder a razão e eu não estiver por perto, você acha que vai poder parar antes que o coração dele congele? Você vai conseguir parar de beber antes de levar embora o último sopro de calor do corpo dele?

13. Sorriso

Nervosismo não combinava com ela, tanto que de tantas pessoas estressadas subindo e descendo, correndo e tremendo, ela era aquela que não se encaixava no contexto, sentada num canto relendo as letras. O mês correu e lá estava ela, algumas músicas junto com o resto do coro, um dueto e um solo. Azure também cantava, cantava com ela no dueto, não havia nada de especial na voz dele além do fato que depois de cantar ele só falava sussurrando por algum tempo. A voz dela não tinha nada de especial também, tirando o fato de que não ia matar ninguém de dor acabava por aí. Trilha sonora ao vivo, essa era a idéia do projeto da nova peça teatral, ficava pensando se daria tudo certo.
-Já fez o aquecimento, Mika? – era uma garota que tocava o violino perguntando.
-Não...
-Então é uma boa hora pra fazer, começamos em dez minutos. – ela avisou saindo correndo escada acima.
Era um teatro comum, enquanto a peça se desenvolvia no palco o instrumental ficava na frente da platéia, por fim o coro ficava no fundo, tudo com o amparo de caixas de som e outras coisas que Mika ignorava onde e como estava ligadas. Azure logo veio se juntar a ela, ficou ali com a cabeça recostada no seu ombro calado, ela já sabia que ele estava nervoso, o coração dele saltava como se ele tivesse acabado de correr uma maratona, ficou quieta também repensando nas músicas.
-Vamos então... – Azure murmurou ao ouvir a chamada pro coro antes que a platéia começasse a entrar.
-Vai dar tudo certo. – Mika falou apertando de leve o braço dele enquanto caminhavam, aquele mero toque fez o sangue dele fluir mais devagar. Como um animal sendo amansado.
Dali de cima ela podia ver as pessoas entrando, Beau e Ângelo estavam no centro da platéia, lugar bom tanto para o som quanto para a visão do palco. Esperava que Korone estivesse com eles, mas não estava. Soltou um suspiro de alivio até que seus olhos o encontraram num camarote, o alivio virou vontade de dar risada vendo que certas coisas nunca mudam. Uma loira com vestido sem alças fazia companhia para ele, muito bonita e parecia empolgada com a peça, nunca a tinha visto antes, assim como nunca vira a maioria das garotas com quem ele saía.
-O que você está olhando? – Era a voz de Azure no seu ouvido, lhe abraçando com carinho. Quase uma criança pedindo colo.
-Estava vendo quem eu conhecia na platéia.
-A Beau veio com o Ângelo, não é? Eles formam um casal bonito...
Azure comentou de maneira displicente, Mika apenas sorriu imaginando se ele diria a mesma coisa se soubesse que os dois eram demônios. O espetáculo começou com música instrumental, como muitos outros começavam, então no meio da música de abertura tudo se cala antes que a música pareça ter chego ao fim, algumas palavras são jogadas ao ar pelos atores e a cena congela. A música continua com as vozes do couro e assim acaba a abertura, todos aplaudiram quando as luzes se apagaram por alguns momentos para depois reacender, todos menos Korone. Azure o viu do lugar onde estava no balcão e não queria imaginar onde estariam as mãos dele naquele momento, virou-se para olhar Mika que sorria esperando sua vez, pedia mentalmente que tudo ficasse bem com ela havia dito.
-Venha comigo! – um personagem chamava – Você não pode dizer não...
-Não, não, não! E mais um não! – a outra respondia.
-Não importa o que fala, ou o que deixa de falar. Eu sei o que você esconde...
Nesse trecho o olhar de Mika foi até Ângelo, quase como um deja vu, depois a cena continuou e seu olhar buscou Korone no camarote, a loira estava de olhos fechados e rosto virado para o teto. Korone estava de costas para o palco, o rosto sobre o ombro dela e os olhos apontados na direção de Mika, um sorriso. Um sorriso despreocupado como só ele sabia sorrir, a garota virou o rosto até notar que a música recomeçava, era o solo dela. Deja vu mais uma vez, nunca tinha pensado muito na letra daquela música antes.
-Não diga mais nada que eu já não quero ouvir. Eu sei que essa tristeza é sua desculpa pra sorrir.
Era uma música que falava sobre mentiras, sobre enganação e fingimento. Máscaras que as pessoas colocam, sorrisos para fingir que não são tristes, lágrimas pra dizer que ainda não são felizes! Palavras cruéis tentando dizer que ama, gestos doces quando na verdade pretendia ferir. Música sobre mentirosos, uma sensação estranha de familiaridade, mas enfim era apenas uma música. Seu olhar acabou passeando enquanto cantava, foi parar no camarote. O mesmo olhar na sua direção, o mesmo rosto, mas o sorriso havia sumido. Fechou os olhos.
-Mika, todos estão aplaudindo de pé!Era a voz de Azure no final da peça, único momento em que tornou a prestar atenção nos arredores, a platéia abaixo aplaudindo os atores no palco. Seu olhar buscou por curiosidade o camarote, a loira aplaudia os artistas na frente, Korone só aplaudia olhando para trás. Sorriso de valentão que atormentava as crianças melhores, despreocupado com tudo, desinteressado com os sentimentos alheios, um sorriso egoísta que você tem vontade de odiar. Mas então por que não odiava?