quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Depois da meia noite

Depois de deitar na cama,
Cobrindo o rosto com o lençol.
Depois de dormir séculos,
Mergulho em álcool e formol.


Não adianta embriagar mágoas,
Nem tentar desconstruir a solidão.
Seu rosto nunca mais vai ser,
Aquela imagem sem perdão.


Olhos vermelhos, lábios roxos.
Depois do último sino, toca-se
O último reflexo do ontem.
Depois da meia noite, nota-se...


As unhas cravadas no travesseiro,
Os lábios abertos soprando frio.
Depois da meia noite, veja pela janela
A última imagem de um corpo esguio.


Caindo como flutua,
Tocando como quem esquiva.
Escondendo, como nua
Imagem de um ídolo à deriva.


Deite-se, feche os olhos vermelhos,
Depois da meia noite, entre lençóis e espelhos.
Toca-se, nota-se... O que o dia não suporta.

Castigo

5
Tapio estava sentado à sombra de uma árvore, com um sorriso de quem acha graça e olhar atento, mantinha as mãos unidas como em prece, mas se concentrava mais no que ela fazia do que no que estava fazendo. Ukko mesmo não sendo mais oficialmente um professor, não deixara sua posição de mestre e ainda pegava no pé deles. Especialmente no de Louhi, especialmente quando ela exagerava, ele ficara sabendo do troll e os colocou em uma semana de treinamento como castigo. Ele sempre advertira, ela não podia passar dos limites, era perigoso demais.
-Por que ele só fica sentado enquanto eu estou aqui? – Louhi perguntou de ponta cabeça num galho de árvore, algumas abdominais depois das flexões e corrida era o aquecimento chato que ela tinha.
-Porque o trabalho dele é muito mais mental que físico. – Ukko falou dando uma batida nas costas delas com a bengala para incentivá-la a fazer a próxima abdominal.
-Corpo são, mente sã. – ela resmungou.
-Não há nada de errado com o corpo de Tapio, ele tem mais disciplina que você. Acabe logo essas abdominais, você tem que treinar 2 horas antes do almoço!
-Sim, mestre!
Treinamento era uma das raras ocasiões onde era possivel ver Louhi coberta por panos, Ukko a fazia usar casaco e calças compridas, Tapio nunca entendeu bem o porque, mas era sempre assim. Depois de acabar a rodada de exercicios era a vez dele ajudar, foi até uma árvore e desenhou um simbolo que lembrava um cubo se quebrando, encostou as duas mãos no tronco e fechou os olhos. Sacerdotes podiam lacrar ou liberar energia, armas como Aku e Ale só podiam ser feitas por sacerdotes experientes, para manter esse poder por muito tempo. Os selos que Louhi usava eram feitos por Tapio, mas depois de uso se tornavam cinzas.
-Ótimo, um Ent do inferno... – Louhi falou enfiando a mão no bolso, a árvore ganhara vida e começara a se contorcer.
-Não. Você está proibida de usar a Aku até depois do almoço.
-Velho maldito...
-Você precisa guardar suas forças, Aku não é um brinquedo. – Ukko falou dando as costas e indo na direção da casa – Mais um a cada cinco minutos, Tapio.
-Sim, mestre. – Tapio falou se protegendo com um selo enquanto a árvore desengonçada e retorcida ia pra cima de Louhi.
-Barreira feita?
-Claro.
-Primeiro selo, pronto...
Louhi não era como Tapio, ela tinha uma confirmação verbal própria para o que fazia ou acontecia, como se sem aquilo a realidade fosse se dissolver e tudo seria mera ilusão. Desviar de galhos saindo de galhos, que sairam de outros galhos sem dúvida não é fácil, mas a quantidade enorme de árvores por ali servia de escudo vez e outra. Por isso viviam naquele lugar isolado, assim ninguém incomodava ou se machucava. As marcas nos pulsos de Louhi mesclavam cicatrizes a tuatuagens, as vezes pareciam saltar aos olhos como veias, especialmente quando ela fazia aquilo... Pular na direção de algo e o segurar com força.
-Madeira! – ela gritou arremessando a árvore.
-Vai ter que fazer melhor que isso, Louhi. Ela ainda está mexendo.
-Não diga. – a garota falou puxando o capuz por cima da cabeça, contou antes de sair correndo. – Um, dois, três...
Tapio se sentia preocupado, às vezes, mas assistir Louhi se escondendo e se movendo sem fazer barulho, caçando e exterminando sempre era um entretenimento garantido. Ele a única pessoa na platéia, o único a fazer expressões de surpresa, susto, alivio, ou saudá-la no final. O único a ver depois que a cortina fecha, o estado enfraquecido, exausto e vazio do que resta de uma atriz que deixa sair o personagem. O tempo passava mais rápido do que ele esperava, faltavam poucos minutos para a pausa do almoço, duas árvores arremessavam Louhi de um lado para o outro, chicotadas de madeira e cortes de folhas.
-Terceiro selo, pronto. Alvo... – Louhi murmurou cravando as mãos no tronco de uma das árvores, se fixou como um parasita. – Eliminado!
-Você só tem dois minutos, Louhi!
Tapio avisou vendo a árvore ser aberta em duas, Louhi parecia cansada e os ferimentos abertos davam a ela a aparência de um animal selvagem num duelo, o peito arfando e os dentes à mostra, os olhos fixos na presa abatida. Tapio sentiu um leve receio quando a outra árvore a capturou com os galhos a mantendo presa contra o tronco, se apertasse o bastante não era díficil para uma árvore quebrar uma pessoa em vários pedacinhos. Louhi não gritou, apesar das caretas, ele preferia que ela tivesse gritado do que ver poucas lágrimas rolarem enquanto ela apertava os punhos.
-Louhi... – Tapio estava pensando em fazer alguma coisa quando um objeto maciço o acertou na cabeça. – Mestre Ukko...
-Se ela não aguenta isso, já está morta... – Ukko falou olhando para a árvore – Você sabe disso...
-Mas mestre já fazem mais de duas horas... – Tapio comentou.
-Você está enxergando, mas não está vendo a situação Tapio. Para um Guardião, bem mais que solucionar uma situação é preciso vê-la e entendê-la. Se você não entende, você não pode fazer nada.
-Claro, mestre. – ele falou olhando para Louhi e a árvore.
-Essa menina é mesmo impressionante. Em três tempos. Marcar, aproximar e por fim eliminar. – Ukko sorriu.
-Mas o que...? – Tapio não acreditava em seus olhos, Louhi tinha quebrado os galhos que as esmagavam e acabara de começar a quebrar a árvore com chutes. – Eu...
-Não precisa se sentir inútil, Tapio, você tem o seu papel. – Ukko falou vendo a árvore ir ao chão, a touca do agasalho caiu, revelando cabeços bagunçados e uma marca que dava a volta no pescoço como uma coleira, aos poucos sumindo. – Também não precisa se sentir fraco, você não é fraco...
-Só não sou um monstro. Ela me falou isso...
-Vá cuidar dos ferimentos dela e comam bem, depois vamos continuar. – Ukko mandou deixando uma cesta com comida aos pés do jovem. – E não se esqueça, você tem o seu papel... Não importa quantos monstros ela possa subjulgar, lembre-se que só você pode fazer o mesmo com ela.
-Sim, mestre.
Louhi estava físicamente quieta, se jogara sob a sombra de uma árvore e não mexera sequer um dedo depois disso, mas não parava de fazer onomatopéias fracas de dor enquanto ele limpava seus cortes e tratava seus ferimentos. Em algumas horas eles deveriam fechar com um pouco de ajuda de seus selos, mas ainda assim antes disso ela já estaria se mexendo de novo. A pele gelada dava a impressão de estar cuidando de um cadaver, mas podia ver o movimento sutil da respiração dela e os olhos cinzas olhando para o vento na copa da árvore. Não se lembrava bem, mas parecia que era só em momentos assim que ela parecia humana.
-Quanto mais selos você usar mais rápido você acaba com os inimigos, mas isso não é de graça. – Tapio comentou puxando o braço dela, havia marcas vermelhas ao redor dos pulsos. – Depois o seu corpo recebe os sinais e consequências do esforço.
-Não diga. – ela murmurou fazendo uma careta quando ele apertou seu pulso. – Não faz isso...
-Eu preciso enfaixar. – ele falou apertando de novo com as ataduras.
-Tanto tempo caçando coisas insignificantes, eu acabei esquecendo como eu me sinto depois de esforço de verdade. – ela comentou virando o rosto e fechando os olhos.
-Fala como se árvores fossem lordes demôniacos. – Tapio comentou, mas sabia que não era fácil.
-Árvores também são insignificantes, mas uma floresta é bem problemática.
Ela simulou um sorriso, os dois se alimentaram quietos na sombra da árvore, imaginando o que Ukko iria inventar para as horas seguintes. Uma cena um tanto quanto nostálgica, ela lembrava bem da primeira aula que tiveram juntos, as duplas tinham sido feitas rápidamentes e os dois sobraram, um garotinho de olhar tímido e ela que fingia que dormia de tédio afastada do resto da turma. Na primeira aula eles tinham que simplesmente fazer exatamente aquilo, ele dava vida à algo para ela tirar, mas na época eram coisas bem menores e mais inofensivas.
-Você acha que alguma coisa mudou nos últimos anos, Louhi?
-Acho, sua cabeça ficou maior. – ela respondeu tomando longos goles de água.
-Não é disso que eu estou falando. Nós ainda fazemos quase as mesmas coisas, Ukko ainda nos castiga dos mesmos jeitos e...
-Você ainda pensa demais. – ela falou sorrindo.
-Eu só imagino que talvez você viva entediada. – ele comentou.
-Eu não ficava entediada de verdade. Eu só... – ela bateu com a garrafa na cabeça dele de leve – Não é da sua conta...
-Sabe, como seu guardião você devia confiar mais em mim... – ele murmurou.
-As pessoas nem sempre fazem o que deviam.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Aku

4
-Proteger... – Tapio murmurou, triângulos cercando ele e Louhi. – Me explique de novo como viemos parar aqui?
-Troll grande e feio destruindo a fazenda... – Louhi murmurou abaixando o revolver, só estava desperdiçando esforço ao atirar naquela coisa.
-Alguma idéia de quando ele vai parar de atirar coisas em nós?
-Nenhuma... – Louhi soltou um suspiro, havia pedaços de cerca e árvores voando na direção deles, colidiam com os triangulos de luz e se partiam em vários pedaços. – Odeio trolls, eles são muito fortes e tem a pele muito dura...
-Quando éramos crianças você odiava muito menos. – Tapio comentou sorrindo.
-Quando éramos crianças eu estava mais ocupada odiando você. – Ela falou sorrindo de volta. – Primeiro selo pronto... Alvo marcado.
-Você não vai conseguir matar ele com isso. – Tapio interveio olhando a faca que se materializara na mão dela.
-A menos que eu vá para trás dele e o acerte na nuca. – Louhi corrigiu.
-Dificil com objetos voando e um troll maluco girando para todos os lados, atacando o nada, Louhi. Você precisaria ser bem mais rápida...
-Não diga.
O que ele podia fazer? Nada. Afinal ela era a assassina, mesmo quando corria e se jogava, quase não fazia barulho o ideal para não ser notada, mas agora era tarde, depois de começar a atirar no troll ele os notara muito bem. A criatura enorme de braços do tamanho de troncos continuava arremessando coisas, agora no pontinho que corria em sua direção. As marcas nos pulsos, a faca ligeiramente grande ou não faria sentido, as botas afundando no chão enquanto corriam e saltavam. Se sentia inútil e nessas horas é que tinha mais motivos para fazer algo.
-Luz... – Tapio murmurou fazendo pontos de luz surgirem por todos os lados, o troll cobriu a cara socando a iluminação.
-Aaaaaaarg!
-Só um pulinho... – Louhi murmurou.
Um pulinho era sua versão de escalar as costas de um troll de quase três metros, saltando por suas pernas e coluna, felizmente trolls não são conhecidos por sua boa postura deixando tudo mais fácil. Não teria conseguido sem Taipo, talvez, mas a verdade é que de qualquer jeito ela teria chegado lá e cravado a faca na nuca do Troll com as duas mãos o fazendo cair de cara no chão. Porque era isso que ela fazia, era isso que fazia de melhor. Puxou a faca de volta e depois limpou o suor do rosto, ao mesmo tempo a arma se tornava um cilindro novamente. De qualquer jeito...
-Segundo selo. Alvo morto. – ela sussurrou, marcas em seus pulsos, mas Taipo sabia que não era só lá que havia algo marcado.
-Louhi, ele te acertou? – Taipo perguntou enquanto se aproximava correndo.
-Não. Ele tem uma mira péssima!
-LOUHI!
Ela ainda estava de pé nas costas do troll quando ele saltou de pé mais uma vez, Tapio gritou pois o viu se mexer primeiro. Louhi caiu pra trás de costas, indo aterrissar no chão de maneira muito dolorosa, Tapio ia invocar um de seus selos, mas talvez não desse tempo. O monstro arremessava coisas mais rápido do que Tapio se protegia delas. Por sorte ele era burro, burro o bastante para dar as costas para a real ameaça, ou pelo menos não se incomodar com a real ameaça nas suas costas. Olhos azuis pálidos, quase cinzas como o que restava de seus alvos, olhos que pareciam reflexos de luz em meio as sombras. De qualquer jeito ele os matava.
-Mexe com alguém do seu tamanho. – Louhi mandou.
Tapio não estava acostumado a ver Louhi usar armas tão grandes, tudo que viu foi a enorme explosão e o troll caindo de novo, dessa vez em pedaços, quando a fumaça e a bagunça baixaram conseguiu ver Louhi meio deitada e meio sentada no chão, uma enorme bazuca em seus braços com fumaça saindo da ponta, o fim apoiado na terra a deixava naquela posição. Os olhos estreitos quando um predador diz para sua presa que a vida dela já era.
-Você não precisava usar uma bazuca. – Tapio murmurou para a garota que se deixou cair deitada, a bazuca de volta na forma de cilindro que cabia no suporte em sua coxa.
-Era mais rápido. – ela falou puxando a saia para guardar sua arma.
-Estava preocupada comigo? – ele perguntou se abaixando, o rosto gentil.
-Você é bem grandinho, pode se cuidar sozinho... – as marcas nos pulsos dela desapareceram.
-Faz tanto tempo que eu não vejo o Aku! – uma voz exclamou animada – Meu pobre, Ale, morre de inveja.
Louhi só virou o rosto para o lado, ao contrário de Tapio que não estava exausto ao ponto de não conseguir se virar para olhar melhor. Era Lahja, uma mulher ruiva de longos cabelos lisos que iam quase até seus tornozelos, sempre usava o mesmo tipo de vestido longo cuja saía voava com o vento dando um efeito cinematográfico em suas aparições. Lahja era a garota perfeitinha, educada de olhos amarelados gentis, a primeira aluna dos antigos mestres. A única que não tinha um par, ela era mais antiga que isso, apesar de ser poucos anos mais velha que eles.
-Para de encarar minha arma. – Louhi mandou relaxando um pouco, se era Lahja não precisava se preocupar.
-Você é mesmo diferente, não gosta que eu olhe para Aku, mas não liga de ficar levantando a saia na frente dos outros. – Lahja comentou dando risada.
-O que está fazendo aqui, Lahja? – Taipo perguntou objetivamente.
-Ale me disse que vocês estavam por perto, decidi vir dar uma olhada. – ela falou esticando um pequeno cetro com um circulo no topo, no centro do circulo ficava preso por pequenos fios um selo de metal, por todo cetro selos, como haviam no cilindro de metal de Louhi.
-Essa coisa fala? – Louhi perguntou.
-Coisa? Você não aprendeu nada sobre esses artefatos, não é? – Lahja murmurou de maneira triste – Artefatos como Ale e Aku, não são como simples armas ou objetos humanos.
-Você sabe que ela prefere fingir que Aku é só um pedaço de metal. – Tapio interveio antes que Lahja começasse uma aula sobre artefatos mágicos.
-Pelo visto a ligação entre vocês ainda é fraca, ou então Aku não gosta de você, por isso não se comunicam. – Lahja murmurou – De qualquer forma o que é esse monte de pedaços de troll espalhados por todo lado?
-A Louhi usou uma bazuca...
-Uma bazuca? – Lahja parecia chocada – Contra um troll?
-É. – Louhi confirmou.
-Isso é como matar uma mosca com um lança chamas, você não devia desperdiçar tanta energia, Louhi! Agora entendo porque você está tão quieta.
Aku não era só um cilindro que se tornava a arma que sua portadora achasse melhor, Aku era um artefato mágico que continha todos os selos sacerdotais. Esse tipo de artefato é uma arma poderosa e perigosa, ao mesmo tempo que ajuda seu portador suga a energia dele para funcionar, tal troca cria uma ligação entre artefato e portador. Geralmente quando a ligação está forte o bastante o artefato se torna como um aliado, o portador se torna seu mestre e um ajuda a existência do outro. Mas no caso de Aku, tudo que fazia era se tornar armas, nada de comunicação, nada de mestre.
-Você precisa se cuidar, Louhi... – Lahja comentou se sentando sobre os joelhos para olhar a outra mais de perto. – Se você usar algo além de sua capacidade, você vai ficar sem energia alguma e cair morta... Ou pior!
-Ela sabe disso, Lahja. – Tapio falou olhando para o céu – A culpa foi minha.
-Sua? Como?
-Ela ficou preocupada que o troll fosse acertar uma árvore na minha cabeça.
-É mesmo? Você é tão atenciosa, Louhi, mas mesmo assim não pode se descuidar. Foi algo muito nobre, mas...
-Lahja. Não foi nada disso, o Tapio que é egocêntrico e acha que tudo é sobre ele.
Houve um silêncio desconfortável, até que Lahja deu risada, era como se fossem crianças de novo e no meio de um exercicio ela os visse treinando longe. Lahja ainda lembrava dos dois quando pequenos, Tapio sempre tentando proteger Louhi e acabando sendo salvo por ela, que fingia que não tinha feito nada por ele. Podia entender os dois, por ser como os dois, mas sentia uma empatia especial por Louhi. Batalhas contra si próprio sempre são as mais preocupantes.
-Eu tenho que ir, preciso exorcizar uma senhora na cidade vizinha. – Lahja falou se levantando.
-Tentar você quer dizer... – Louhi corrigiu, se sentou com uma certa lerdeza, seu corpo estava pesado. – Exorcismo é uma ficção.
-Eu só espero poder lacrar o demônio e deixá-la voltar a sua vida normal. – Lahja falou com o olhar distante – Mesmo que aquilo fique preso dentro dela para sempre, não iria incomodá-la ou usá-la.
-Boa sorte. Se o corpo dela não aguentar você sabe o que acontece... – otimismo não era exatamente parte dos hábitos da garota.
-Eu tenho fé nas pessoas. – a mulher respondeu sorrindo – Eu sei que, todas têm pelo menos a chance de lutar contra seus próprios demônios. Eu sei que elas tem o potencial...
-E quando todas elas o usarem ao invés de esperarem os outros resolverem seus problemas, o mundo vai ser um lugar mais justo e iluminado. – Louhi falou sorrindo, mas não parecia feliz, também não parecia deboche – Acredite nisso por nós duas, Lahja.
-Claro. Cuide dela, Tapio. A mantenha longe das bazucas!
-Sim, senhora. – Tapio falou vendo Lahja partir, tão rápido quanto chegou.
Ficou olhando para Louhi sentada, os joelhos dobrados para o lado, os olhos às vezes no chão e às vezes no céu, parecia procurar alguma coisa. Todo o sentido da vida dela era matar demônios, mas odiava o fato de precisarem dela para fazer isso, de alguma forma aquilo era um jeito de odiar a si mesma e deixava Tapio preocupado com ela. Preocupado que talvez o mundo ideal de Louhi, fosse um mundo sem ela, ou até mesmo ele, visto que um mundo aonde não se precisa de assassinos de demônios, eles sequer existiriam.
-Casa? – Tapio sugeriu.
-Eu não consigo andar ainda... – Louhi falou mexendo debilmente as pernas.
-Pode deixar que eu te levo... – ele virou de costas pra ela – Vem...
-Sabe de uma coisa Tapio? – ela perguntou enquanto ele a levantava e começava a andar.
-O que?
-Se nós caçassemos coelhinhos, filhotes de cachorro, ou algo assim... Eu acho que talvez você não fosse um fracote. – Louhi falou sorrindo.
-É, eu seria o terror das nossas presas. – ele comentou de maneira sarcástica, não se sentia ofendido, mas... – Que conversa é essa?
-Só estava pensando que você não é fraco. – Louhi falou o segurando mais forte – Você só não é um monstro.

Letra e Melodia

Dedos cortados, esfolados,
De tocar guitarra sem palheta.
Cada nota salta aos ouvidos,
Vou pra direita ou pra esquerda?

Cada serenata sob a noite,
Chamados vêm de ninguém.
Cada sussurro desliza, mas
os gritos vão mais além.

Qual voz vai completar
Minha melhor melodia?

Que canção vai me levar,
Noite adentro, fim do dia?

Já se acabam meus acordes,
Rompem-se as cordas,
Quebra-se meu último violão.

Silenciadas todas as vozes,
Refrões fora de moda,
Fluem na última canção.

Quantas músicas faltam,
Pra você poder me ouvir?

Quantas noites cantando,
Até você chegar aqui?

Numa torre sem porta,
Distância da tortura.

Numa música sem nome,
Melodia sem partitura.

Você pode me ouvir?

Falta muito por aí?

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Não é nada

3
-Ukko! Cheguei... – Louhi anunciou chutando a porta, o velhinho se balançava na cadeira.
-Bem vindos de volta. – Ukko saudou. – Temos visitas...
-Muito prazer jovens mestres. – um rapaz de cabelos loiros engomados e roupas bem cortadas saudou sentado com um copo de água entre as mãos – Me chamo Aimo Caecilius, herdeiro e...
-Idiota que diminui o preço das armas de fogo, eu sei quem você é. – Louhi falou mal humorada, não que ela fosse diferente, mas odiava pessoas que lucravam com a morte dos outros.
-Perdoe a Louhi, ela sempre fica desse jeito quando não mata ninguém. – Tapio falou indo juntar-se aos dois, ela não, ficou de longe olhando de braços cruzados – A que devemos a visita?
-Tenho um problema que sei que apenas pessoas como vocês podem solucionar. Há algum tempo atrás meu pai casou-se novamente...
-Nós não lidamos com revoltas familiares. – Tapio cortou a história.
-Ela o escravizou, ele se tornou como um boneco sem vida que simplesmente faz tudo que ela diz, mas não é só isso. Eu a vi pela porta com um cara, fora tantos outros que ela sempre leva para casa.
-Infidelidade, dominação...
-Eu só os vejo uma vez, acho que ela os mata... – Aimo falou engolindo em seco. – Ela não é humana, tenho certeza.
-E você a quer morta? – Tapio perguntou só por força do hábito.
-Sim, meu pai daquele jeito...
-Burgueses... Podem morrer mil pessoas, mas só se importam consigo mesmos. – Louhi exclamou começando a subir as escadas – Eu vou me trocar...
-Ela realmente me odeia, não é? – Aimo procurou confirmação.
-É a natureza altruísta dela. – Tapio falou em tom de brincadeira – Ou talvez seja o complexo do espelho dos defeitos.
-O que?
-Vê-se e odeia-se nos outros, os defeitos que se tem. – Ukko explicou com um sorriso – Vá se preparar, Tapio... Se o que o jovem diz está certo, você vai ser a isca.
-Sim, mestre.
Aimo só entendia aquilo que se encaixava em sua realidade, compra e venda de produtos e propriedades, contratação e demissão, investimentos, não entendia nada de demônios, nada de caçadas, nada de assassinos. Pessoas como os Caecilius nunca faziam nada por si, sempre mandavam alguém fazer por eles. Louhi apenas tomou um banho rápido e engoliu uma maçã em algumas mordidas, não tinha tempo para fazer as malas. Tapio também não teve tempo de fazer muita coisa, apenas de se preparar e colocar uma roupa social.
-Meus convidados?
-É mais fácil nos aproximar-mos se formos seus convidados. – Tapio esclareceu, de dentro da mansão tudo ficaria mais fácil. – Finja que somos colegas.
-E Louhi?
-Eu sou a irmãzinha dele. – Louhi falou em tom de zombaria.
-Está bem. Meu motorista ficou na cidade, vamos...
A entrada para o mundo de Aimo Caecilius é estreita e vigiada, seguranças, jardineiros, empregados, todos para todos os lados, é um pesadelo entrar discretamente a menos que se entre ao lado dele. Quando o herdeiro chega todos baixam a cabeça ou desviam os olhos, perfeito para entrar sem ser notado pela maior parte dos empregados é vir andando atrás dele, naturalmente. Tapio estava sério, não fazia bem o papel de isca, pois não se destavaca, ele parecia parte de tudo. Mas naquele caso isso não seria problema, não com aquele tipo de demônio.
-Aimo! Aonde esteve? Fiquei preocupada! – a voz era sedosa, como uma sereia cantando para os navios afundarem. – Não vai dar um abraço na mamãe?
-Eu só fiquei fora um dia. – Aimo comentou sem chegar perto.
-Trouxe amigos?
-Deixe-me lhes apresentar. Estes são meu amigo Tapio e sua irmã Louhi, esta é minha madrasta Kielo.
-Já disse para me chamar de mãe. – Kielo falou torcendo os lábios, se aproximou – É um prazer conhecer um amigo de Aimo, ele costuma ser tão tímido.
-O prazer é meu, senhora Caecilius.
Tapio podia entender a situação do pai de Aimo, como ele acabara daquele jeito, Kielo era uma mulher de aparência generosa, nada dela possuía um sequer defeito, desde os cabelos encaracolados até os lábios macios, os olhos evocativos de um azul luminoso a deixavam apta a derrubar o queixo de qualquer homem. Menos de Tapio. Ele já vira aquele tipo de beleza antes, conhecia bem aquelas curvas generosas e detalhes perfeitos, a beleza falsa que muitas como Kielo usavam para atrair homens.
-Sintam-se à vontade. Vou mandar preparar seus quartos.
Previsivelmente ela mordeu a isca, Tapio foi colocado no quarto logo ao lado dos donos da casa, enquanto isso Louhi ficara na extremidade da mansão, próxima ao quarto dos empregados. Mas ela não estava nem um pouco preocupada com a distância, fez-se a vontade e obrigou Aimo a lhe mostrar a mansão, quando chegaram ao escritório o dono da casa estava em sua mesa, com olhos vazios encarando um pedaço de papel em branco. A garota se sentou sobre a mesa e olhou ao redor, já havia calçado sua luva preta e analisava as coisas sobre a mesa.
-O que está fazendo?
-Dando tempo...
-Tempo? – Aimo perguntou entre o impaciente e indignado – Não vê o estado dele? O que está esperando?
-Estou esperando a Kielo tentar matar o Tapio.
-Isso é perigoso! Ela já...
-Perigoso? – Louhi sorriu – Não pro meu Guardião. Você vai ver...
Tapio não gostava daquela situação, assim que chegou no quarto que lhe encaminharam Kielo o esperava, com um sorriso convidativo. As palavras dela passavam direto por ele sem entrar em sua mente, qualquer coisa sobre estar feliz por tê-lo ali, ou algo assim. Aquele tipo de demônio era sempre igual, enquanto servia o vinho nem via as pequenas marcas de luz que ele espalhava pelo quarto. Tão ocupada vendo a si mesma no espelho, ou no reflexo dos olhos dele, sequer notava suas ações. Narcisistas são muito fáceis de serem pegos de surpresa, afinal não vêem nada além de si próprios.
-Acho que já deu tempo... – Louhi falou descendo da mesa – Eu devia te avisar agora, Aimo. Mesmo depois que a matarmos, não há garantia que seu pai volte ao normal.
-O quê?
-Alias há uma grande chance dele cometer suicidio. – Louhi falou enquanto ia até a porta, ele a agarrou pelo braço.
-Explique!
-É que quando um humano é reduzido a um escravo de um demônio, em casos como este, às vezes ele tenta seguir o mestre por amor ou lealdade, até na morte. – Louhi falou vendo o homem de olhos vazios se levantar. – Fique aí, senhor Caecilius. Não é você que eu vim matar...
-Papai...
-Venha, Aimo. Acho que vai querer ver ela morrendo...
Ele a seguiu desconfiado, a seguiu até o quarto de Tapio, ele sentado na cama com sua madrasta com um sorriso tão gentil quanto os que mostrara na cabana enquanto conversavam. Por um momento temeu que Tapio agora fosse dela também, Louhi não parecia preocupada, nem mesmo quando ambos se inclinaram sem desviar os olhos, os lábios se atraindo. Um múrmurio antes de um beijo pode ser só um múrmurio, mas às vezes pode ser bem mais. Louhi deixou escapar de seus lábios um sorriso maldoso de quem sabe algo que o outro não sabe.
-Selar...
-O que, meu querido? – Kielo perguntou com os braços ao redor do pescoço dele, só notou o que estava acontecendo quando o enorme simbolo luminoso apareceu na frente do seu rosto. – Um sacerdote! Seu desgraçado!
-Perdeu a vontade de beijar ele...? – Louhi perguntou abrindo a porta, levantou a saia para pegar seu cilindro. – Ainda bem, se ele beijasse você eu teria que arrancar a boca dele pra não infectar o corpo inteiro.
-Eu nunca beijaria um demônio, Louhi. – Tapio comentou fazendo a outra lançar um olhar um tanto quanto mortal para ele, talvez duvidasse. – Não tente correr, eu já selei as paredes e a porta.
-Aimo! O que você trouxe aqui? SEU PIRRALHO MALDITO! – Kielo gritou para o jovem que estava olhando do lado de fora do quarto.
-Co-como...isso...
-NÃO ME OLHE ASSIM SEU TRAIDOR! – ela gritou, a voz não parecia mais tão bonita.
-Eu também olharia se não estivesse acostumada com monstrengos. – Louhi falou erguendo o cilindro que virou uma pistola.
-Do que está falando?
Kielo correu até o espelho, viu a marca luminosa sobre seu rosto, o selo que a impedia de usar seus poderes, que trancafiava suas habilidades. Essa era a diferença entre um sacerdote e um guerreiro, o sacerdote podia ser quase inútil em batalhas e frágil, mas nenhum guerreiro conseguia fazer aquele tipo de selo, usar aquele tipo de magia. Kielo retornou ao que ela era de verdade, sem poder usar seus poderes para parecer a mulher jovem e bela, era apenas um monstro de escamas e chifres, nem de longe bela ou atrativa. As succubus não seduzem homens porque são bonitas, elas seduzem homens para serem bonitas.
-SEU MALDITO!
-Fútil. – Foi tudo que Louhi disse antes de disparar fazendo explodir a mão com garras que ia até Tapio, depois atirou na cabeça e corpo até só sobrar o pó. – Nem teve graça...
-Louhi! – Tapio gritou fazendo a garota se virar, um tiro veio na direção dela, com sorte o movimento o fez apenas acertar o ombro.
-Eu odeio escravos... – Louhi murmurou apertando o ferimento com a mão livre, encarando o dono da mansão com a pistola na mão. – O primeiro selo... – surgiram marcas ao redor de seus pulsos.
-Mestra Kielo... – o homem da pistola murmurou com lágrimas escorrendo de seus olhos sem vida, a pistola tremendo entre suas mãos enquanto atirava.
-E eu odeio fracotes... – Louhi murmurou, pulou para frente e com um alicate, no qual o revolver tinha se transformado, não só segurou, mas como dobrou o cano da pistola, força impossivel para uma garota como ela. – Alguém que não consegue sequer resistir a um demônio insignificante como aquele, não merece nem o trabalho de ser morto...
-Papai! – Aimo gritava segurando o homem que chorava sem fazer barulho. – Papai, acabou...
-Louhi, deixe-me ver seu ombro. – Tapio falou estendendo a mão para ela.
-Não é nada. Vamos embora daqui.
-Louhi...
Tapio assistiu as marcas nos pulsos dela sumirem, a assistiu caminhar como um fantasma que passa por pai e filho no chão, chorando como se tudo aquilo fosse uma grande tragédia. Ele afinal era o guardião, selava o mal que os assombrava, olhava por ela e tentava protegê-la sempre que podia. Mas no fim, por que sempre parecia que era ela quem o protegia? Olhou para o monte de cinzas que um dia foram o demônio que fingia ser uma bela mulher, demônios capazes de enganar mentes fracas, pessoas fracas. Entendia Louhi, era revoltante saber que as pessoas não tinham força ou vontade suficiente, para espantar seus próprios demônios. Mas se não fosse assim. Se eles fossem fortes, o significado deles, o que eles eram, não iria valer nada.
-Tapio... O que eu faço? Meu pai... Meu pai...
-Ele não vai voltar ao normal. – Tapio falou tirando o terno e jogando por cima das cinzas, ainda sentia o perfume de Kielo nele. – É tarde demais pra ele...
-O que eu vou fazer? Me ajude!
-Ajude a si mesmo, seja mais forte que o seu pai.
Ele tinha que achar a guerreira, a assassina, não foi dificil, bastava seguir o rastro de sangue que respingava do ombro dela, a encontrou na entrada para a propriedade, encostada na mureta enquanto alguns carros passavam pela rua, ignorando completamente a situação. Não era dificil entender porque coisas assim existiam e ninguém sabia, estavam todos ocupados correndo de um lado para o outro, vivendo suas vidas numa era de pressa e impaciência.
-O pai dele vai morrer logo... – Louhi comentou olhando para o céu.
-Não é culpa sua. – Tapio murmurou com um olhar bondoso.
-Não. É só a sobrevivência do mais forte. Os fracos não sobrevivem... – ela murmurou baixando o rosto com uma careta.
-O fraco estourou seu ombro, deixe-me ver esse ferimento.
-Não precisa. Não é nada.
-Você não precisa sentir dor, sabia? – Tapio murmurou se aproximando dela.
-É bom sentir dor... me lembra que eu estou viva e sou humana. – ela murmurou levantando o rosto – E para com esse ar de guardião bonzinho, preocupado e cuidadoso pra cima de mim.
-Não dá pra evitar, eu sou seu guardião.
-Nós dois sabemos o que isso realmente significa.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Sem vontade

2
Louhi guardou o baú de fragmentos de pedras preciosas, era seu adiantamento por ter ido até ali, a maioria dos habitantes de Sirpa pareciam desconfiados, estranhar aqueles jovens de roupas modernas. O moço de contas no pulso e pescoço, a garota de saia de pregas e uma luva só, chegaram até a feira no centro, dava pra ver a grande atividade de venda de matéria prima e artigos feitos de fragmentos de metais, pedras e até mesmo ossos. Tudo era fragmentado naquela cidade, até mesmo a informação, para saber de um acidente se perguntava o começo para um, o decorrer para outro e por fim como tudo acabou a um terceiro que geralmente só ouvira falar.
-Eu sinto muito... – Tapio murmurou para filhotes de raposa presos numa pequena jaula ao lado de uma barraca. – Senhor... Quanto por estes?
-Não estão a venda, não estão prontos. – o vendedor falou puxando a jaula.
-Prontos? – Louhi perguntou chegando mais perto.
-É, pegamos e esperamos crescer, depois podemos tirar os pelos, couro...
-Quieto. – Louhi falou estendendo a mão, o vendedor pareceu estranhar e levou um susto com o gesto brusco. Na verdade ela estava era mandando Tapio ficar quieto, sabia o quanto ele era apegado a animais. – Quanto ganharia por eles prontos?
-Depende do cliente, mil... dois mil... – o vendedor falou agitando as mãos.
-Mil por todos. – Louhi falou puxando a jaula com a mão da luva.
-Mil e quinhentos e você leva... – vendedor falou segurando a jaula, dava pra ver a ganância girando em seus olhos.
-Aceite os mil e se poupe do trabalho de fragmentá-los. – Louhi falou estreitando os olhos, o homem deu um passo para trás, era como ter uma besta adulta o espreitando.
-Mas eles valem mais aos pedaços...
-Mas você continuaria não valendo nada se o arrebentassem. – Louhi falou chutando a porta da jaula a deixando aberta. – Pense nisso...
Tapio se manteve calado, apenas um dos filhotes não sai correndo de volta para as florestas, ficou ali brincando entre os pés do guardião silencioso, como duas criaturas inofensivas trocando confidências com olhares. Louhi ignorou os dois, continuava conversando com as pessoas e analisando o lugar, até ver uma barraca ser jogada para o alto e cair encima de alguns compradores e um vendedor de lascas de ossos. Um micro sorriso apareceu no rosto dela que deu as costas e voltou para a floresta. Tapio a seguiu, só quebrando o silêncio quando saíram da cidade.
-Por que os comprou?
-Pra você não chorar no meu ombro pelo destino deles. – Louhi explicou olhando o bichinho entre as pernas do amigo. – Eu sei que não adianta...
-Os libertando hoje, eles serão caçados amanhã. – Tapio concluiu pegando a raposinha no colo, admirava a compaixão, mas sabia que a realidade não era tão bela. – Por isso você tem que ter muito cuidado.
-Que seja. Deve começar logo... – Louhi murmurou, não gostava daqueles assuntos.
-O que?
-Chuva de raposa... – ela falou apontando para o céu com poucas nuvens, o sol ainda brilhava quando começou a chover no céu meio azul meio nebuloso.
-Como você sabia? – Tapio perguntou largando a raposinha que ficou correndo em circulos na chuva, pulando nas pequenas poças que iam se formando.
-Eu acho que já sei o que está acontecendo aqui em Sirpa.
-Me ilumine...
-Os vendedores contratam caçadores ou saem eles mesmo para achar animais com partes valiosas, como raposas, ursos, entre outros... Os caçadores trazem os animais, os vendedores os mantém até estarem prontos para serem vendidos. O problema é vingança tardia.
-Vingança tardia?
-Alguém está se vingando pelos animais, mas ao invés de estripar os caçadores, está atacando os vendedores que os mantém presos.
-Sem os vendedores eles não seriam caçados. – Tapio comentou.
-Sem quem os caçasse os vendedores não iriam querê-los.
-Sem quem cace não há venda, sem quem venda não há quem cace. – Tapio murmurou se abaixando junto a raposinha na poça de água – Aonde a chuva de raposa entra?
-Você devia saber Tapio, um animalzinho qualquer não poderia se vingar. Temos que achar o vingador e então...
-É errado? Proteger as presas? As vítimas?
-Do ponto de vista de quem nos contratou é. Mas eu entendo você, também acho que os vendedores eram mereciam alguns tiros na testa.
-Respeitar o contrato... – Tapio espantou o filhote de raposa com as mãos – Ukko nos ensinou isso. Mas...
-Eu tenho uma idéia... Mas primeiros vamos caçar essa raposa. – Louhi falou sorrindo, tocou o ombro dele de leve – Confia em mim?
-Claro.
Confiança. Foi a primeira coisa que Ukko teve que ensinar a Louhi e Tapio quando ainda eram pequenos, ela simplesmente acreditava que tudo era como era e nunca iria passar disso e ele simplesmente tinha medo de tudo, pois tudo parecia tão sinistro. Até hoje não tinham lá grande confiança nas pessoas ou no mundo, mas pelo menos um no outro eles confiavam, afinal um tinha o outro e nada mais. Os antigos mestres dividiam todos em duplas e eles sobraram, os alunos do canto que não eram como os outros, só restou ficarem um com o outro, mas ainda assim ele sentia que Louhi estava a milhas de distância dele. Por que duplas?
-Ora, ora... Os aprendizes do ofício. – era uma mulher loira usando uma pele de raposa como manto, usava um vestido branco e tinha a face alongada como um animal. – Ukko, os mandou?
-Pode-se dizer que sim... – Tapio respondeu alguns passos atrás de Louhi. – Nos conhece?
-Os conheci ainda pequenos... O Guardião e o Assassino, a combinação que os antigos mestres criaram para aumentarem a eficiência. Eu os vi aprendendo e agora vejo o resultado.
-Eu lembro de você... – Louhi comentou – Você roubou o peixe que nós assamos no acampamento, não foi?
-Me reconheceu? – a mulher pareceu surpresa.
-Eu nunca esqueço um alvo. – Louhi murmurou, mas depois sorriu – Na época eu queria matá-la por me deixar sem café da manhã.
-E agora, vai me matar por atrapalhar os mercadores da morte?! NÃO VAI ACONTECER APRENDIZES!
-Selo...
A voz de Tapio ecôou como a batida de um sino, a mulher se tornara uma raposa que corria entre as árvores, o jovem ergueu a mão onde as contas tilintaram, mas a raposa foi mais rápida que ele. Louhi puxou um selo oriental dentro tantos que ficavam presos num compartimento preso ao cinto que ficava caído sobre sua saía, ergueu o pergaminho na frente do rosto murmurando: marcar. A praticidade superava a perfeição de Tapio, ela só podia usar brincadeiras de crianças como aquela, mas eram mais úteis uma vez que a precisão necessária era quase nula.
-O que você marcou?
-O lugar da onde ela sumiu... – Louhi falou pegando outro selo, podia ouvir a raposa correndo, mas era dicil acompanhar com os olhos. – Quando eu der o sinal, feche as saídas.
-Isso é uma floresta não uma casa, Louhi.
-Você entendeu!
Louhi correu entre as árvores cada vez que erguia o selo e murmurava o pergaminho se tornava cinzas e uma pequena luz em forma de X marcava algum lugar, ou alguma coisa, ou alguém. Ergueu a saia na altura da coxa esquerda, presa a sua perna ficava um pequeno cilindo de metal com os mesmos simbolos das contas de Tapio, os mesmos simbolos na barra de sua luva preta, que ficava na mão direita. Ouviu a raposa passando por trás de si e deu um salto para frente para evitar perder algum pedaço para dentes ou garras, a raposa sumiu na sua frente. Criaturas velozes, mas não era tudo, rapozas podiam criar portais que ligam um lugar ao outro.
-Nós não somos mais aprendizes. – Louhi falou erguendo o braço direito, apoiava com o esquerdo o cilindro que se transformou numa pistola. – Tapio! – um tiro luminoso para o céu.
-Aprisionar. – Tapio falou erguendo a mão com as contas, como quem empurra o ar deu um golpe para a frente, as contas ressoaram, cada marca se ligou a outra, formando uma corrente luminosa que depois começou a se estender como uma parede.
-Agora ela fica no meu campo de visão. – Louhi comentou baixando o revolver, segurou com as duas mãos e com o mínimo esforço o revolver virou uma corrente. – Dona raposa?
-Humanos sujos... – a voz da raposa ecoou, uma vez que Tapio selava um lugar, ninguém podia deixá-lo até ele desfazer o selo. – Mas ainda assim, só humanos... Posso cortá-los em dois com minhas garras.
-Tapio se proteja... – Louhi falou andando entre as árvores, como um fantasma, sem barulho.
-Claro. – Tapio falou repetindo o movimento, uma figura luminosa que lembrava um triangulo, só que curvo, apareceu na sua frente e ao seu lado e em suas costas.
-O primeiro selo está pronto... – foi só um murmúrio.
A raposa surgiu do nada ao lado de Louhi pulando para abocanhá-la, não deu tempo de segurar com cuidado, então Louhi se viu obrigada a desviar e empurrar a raposa para o chão com toda sua força, foi um estrondo. Demorou para conseguir enroscar a corrente no animal que se contorcia e retorcia. Havia marcas em seus pulsos, marcas estranhas como as dos selos de Tapio, a raposa parecia não entender como uma humana tão simples e de aparência comum podia ter força para segurá-la e prendê-la.
-Seguro. – Louhi anunciou para Tapio poder vir até elas. Depois alertou a raposa – Pare de se debater ou vai se machucar com as correntes.
-Como é possível?
-Sabe, nós não somos dois por nenhum motivo de batalha, o Tapio geralmente é bem próximo do inútil nesse tipo de coisa. – Louhi comentou, não tinha nada a ver com eficiência eles serem dois – Nós somos dois porque Lahja era a única que conseguia aprender as duas habilidades essenciais do ofício, todos os outros aprendiam apenas uma delas, então... Nos dividiram em pares, onde cada um é bom em uma delas.
-Eu não entendo... Apenas me mate logo... – a raposa falou baixando a cabeça, parara de lutar contra as correntes.
-Não entende mesmo. – Louhi falou afrouxando as correntes – Nós não viemos aqui atacar nem matar você. Viemos fazer um acordo.
-Acordo?
Louhi explicou com ajuda de Tapio sua idéia, tudo que pediram para eles era que os acidentes acabassem, desde que ela parasse com os acidentes tinham cumprido sua condição. Mas concordavam que ela devia mesmo proteger os animais que eram mais fracos que os caçadores, então ela podia matá-los se quisesse, afinal os caçadores não tinham nada a ver com eles. Ao fim da explicação o filhotinho de raposa que brincava na chuva apareceu entre eles, Tapio já tinha apagado os selos. Por mais que costumassem proteger humanos, havia humanos que não mereciam proteção.
-Como soube que era eu? – a raposa perguntou.
-Eu vi os filhotes. – Louhi falou se espreguiçando – Depois notei que ninguém se aproximou e a barraca saiu voando, o que quer dizer que alguém tinha surgido do nada e por fim... A chuva de raposa. Quando há muitos portais numa região abertos, é comum vir a chuva de raposa.
-E como me achou?
-Os filhotes que eu soltei correram todos na mesma direção e eu tinha marcado eles, não foi dificil seguir até você.
-Entendo. Você é uma boa caçadora. – a raposa comentou em sua forma de mulher, pegou o filhote no colo.
-Sorte de vocês eu não caçar animais indefesos. – Louhi falou dando as costas e indo embora, tinha que pegar seu pagamento e definitivamente aquilo estava ficando sentimental demais.
-Ela é mesmo uma boa caçadora. – Taipo comentou sorrindo bondosamente – Em outras circunstâncias, acho que ela não se importaria em caçar você...
-Circunstâncias?
-Eu gosto muito de animais e ela aparenta gostar de mim, então pegou leve com você. Mesmo você sendo exatamente o tipo de presa dela. Se ela não sente vontade, ela não caça. Mas se ela sente...
-Sim, afinal é o que vocês foram treinados para fazer não é mesmo? Assassinos de demônios. – a raposa falou com um breve sorriso – Espero não cruzar o caminho de vocês de novo.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Mestre Ukko

1
A casa era pequena, extremamente pequena, mal dava para aconchegar os três moradores, dois deles mais extensivos e o outro, bem, o outro encolhia com o tempo, como todo velho. Sentado na cadeira de balanço olhando pela janela, dando pontos em algumas roupas, cozinhando curvado sobre as chamas, ajeitando as bugigangas e ferramentas do ofício, parecia um velhinho comum, de pouco cabeço e barba branca rala, pequenos olhinhos expremidos para poder enxergar.
-Ukko! Visitas! – uma voz gritou do andar de cima, provavelmente vira chegar de longe.
-Visitas...? Sim, sim... porta... – o velhinho murmurou consigo mesmo enquanto levantava, a idade lhe doendo as juntas e deixando os movimentos lentos. Quando a porta girou só havia um homem encapuzado e cheio de blusas, como quem passa muito frio, ou se esconde – Olá. Quer vender algo?
-Estou procurando o Sr. Ukko, o Exterminador. Poderia chamá-lo? – o homem pediu, olhava por cima dos ombros compulsivamente.
-Ukko? Sim, claro, claro... – o velhinho falou saindo do caminho – Entre, por favor...
-Obrigado, senhor.
Era uma saleta modesta, um sofá jogado num canto e uma cadeira de balanço, não havia espaço para estante ou armário, mas havia um banquinho que improvisava uma mesa caso fosse necessária uma. O homem se sentou no sofá olhando pela janela, era possivel ver a trilha pela floresta que levava até a estrada, que por sua vez levava até a cidade mais próxima e a outras também. O velhinho sentou na cadeira de balanço.
-O que deseja com o Exterminador, meu filho? – o velhinho perguntou coçando a cabeça, quase como caduco sem ir fingir que chamava ou se apresentar como Ukko.
-Há um problema que achamos que ele podia resolver para nós. – o homem respondeu puxando um pouco um cachecol que usava sobre o rosto, só podia estar morrendo de calor.
-Nós? – o velho perguntou surpreso.
-Poderia chamá-lo?
-Não será necessário.
O homem encapuzado levou um susto, entrava pela porta de maneira tranquila um jovem de cabelos negros bagunçados pelo vento, usava um colar de contas justo com vários simbolos nas pequenas continhas negras, fora disso apenas uma camisa branca e uma calça jeans, tinha olhos que lembravam as contas que usava, negros com pequenos pontos brilhantes aonde a luz refletia. O velhinho soltou um sorriso se recostando sossegado na cadeira de balanço que rangia, ergueu as sombrancelhas como quem cumprimenta.
-Mestre. – o jovem cumprimentou juntando as mãos.
-Você demorou... – o velhinho falou.
-Senhor Ukko? – o homem perguntou se levantando e logo continuando nervosamente como se estivesse na presença de uma entidade – Uma honra conhecê-lo! Precisamos muito de seus serviços, por preços aceitáveis claro!
-Acalme-se, por favor. – o jovem pediu erguendo uma mão, haviam mais contas enroladas em seu pulso e mão. – Acho que se enganou. Sou Tapio, o Guardião.
-Tapio? Mas... disseram que Ukko, o Exterminador vivia aqui!
-Quanto tempo você acha que faz desde o primeiro feito do Exterminador? – Tapio perguntou com um sorriso bondoso.
-Bem... Muito tempo...
-Então esse Ukko, devia ser bem velho agora não?
O homem entendeu no choque, se virou para o velhinho na cadeira de balanço que acenou com a ponta dos dedos sorrindo. Claro, o temido e procurado Ukko era uma lenda há décadas e por mais que fossem lendas incriveis, ele era apenas um homem e o tempo era igual para todos os homens. O grande Ukko, agora era apenas um velho que mal andava na velocidade de uma tartaruga, não havia esperança. O homem se sentou na decepção, como um moribundo no deserto que descobre que o oasis é apenas areia.
-Estamos perdidos...
-Não tema, filho. – o velhinho falou tossindo. – Tire esses trapos e me diga qual seu problema. Talvez eu ainda possa ajudar.
-Vou pegar água para você mestre. – Tapio se ofereceu.
-Moro na cidade de Sirpa, a pequena cidade seguindo as trilhas que dão na colina. O ponto de troca de alguns comerciantes e aonde se produz...
-Fragmentos, conheço Sirpa. – o velhinho concordou com a cabeça pegando o copo de água que Taipo trazia, o jovem ficou em pé ao seu lado como um cão fiel.
-Há algum tempo acidentes começaram a acontecer, já tentamos de tudo para acabar com eles, mas não adiantou. Nem temos um culpado... Os últimos dois que foram buscar ajuda sofreram acidentes, por isso estou assim. Pensamos que o grande Ukko, poderia achar o culpado e acabar com ele, mas...
-Culpado de acidentes? Sempre achei que acidentes fossem... Bem, acidentes. – o velhinho murmurou pondo de lado o copo de água vazio. –Você quer a causa e que os acidentes parem?
-Claro. – o homem concordou, finalmente tirou todos agasalhos, capuzes e cachecóis, era um jovem de pele avermelhada, provavelmente pelo calor, olhos amarelados e cabelos entre o vermelho e o laranja. – Por favor, sabe quem pode nos ajudar?
-Qual seria a recompensa por acabar com os acidentes de toda uma pequena cidade, filho? De quanto estamos falando? – Ukko perguntou diretamente, antes de tudo era um mercenário.
-Um baú de fragmentos de pedra preciosa e vinte mil em dinheiro, ou depositado num banco de sua preferência. – o jovem falou o que lhe foi dito com precisão.
-Toda uma pequena cidade valendo tão pouco. – Ukko murmurou. – Acho que serve o exercicio. Tapio...
-Seu aprendiz? Ele irá matar quem causa nossos problemas? – o jovem perguntou empolgado.
-Tapio? Matar? – Ukko riu – Não, não...
-Sou um Guardião, um sacerdote e acima de tudo um ajudante. Jamais feri ou matei o que quer que fosse. – Tapio respondeu, não pareceu ofendido, apenas surpreso com o rosto animado do outro sob a persperctiva de outro exterminador. – Mas irei ajudar no que for possível, se assim o mestre quiser.
-Claro, você também vai. Chame a Louhi e vão com o jovem aqui. – Ukko comentou com gestos breves – Eles vão resolver qualquer problema que vocês tiverem, filho...
-Louhi? Uma mulher? – o jovem perguntou desconfiado.
-Louhi, não é só uma mulher. – Tapio corrigiu antes de sair da sala – Ela é uma caçadora, mercenária e Assassina.
O jovem se encolheu no sofá, como uma criança que acabara de receber bronca ou sermão dos pais, sentiu um tom ligeiramente ofendido vindo de Tapio antes que saísse da sala. Ficou ali com o velho Ukko que balançava em sua cadeira muito tranquilamente, esperando o que viria descer daquelas escadas simples. Esperava por armas modernas, talvez brutas armas brancas, quem sabe uma imagem feminina de um lutador ou militar, mas não esperava o que apareceu diante de seus olhos.
-Louhi, vá com Tapio ajudar a cidade desse jovem. Quando chegar a Sirpa, pegue um adiantamento, sim? – Ukko comentou sorrindo.
-E se ela não conseguir? – o jovem questionou desconfiado e incrédulo no sucesso.
-Você pega de volta. – Ukko respondeu simplesmente.
-É tão triste quando julgam pela aparência. – Louhi murmurou caminhando até a porta a batendo atrás de si quando saiu.
-Não se preocupe, ela não está brava. – Taipo comentou sorrindo – Tente ser mais gentil com uma dama, elas são medonhas bravas.
-Está bem, mas...
-Vamos. Louhi já deve estar na metade do caminho...
-Mas...
O jovem não entendia aquele ritmo de caminhada, Louhi andava como um fantasma, era como se apenas passasse flutuando pelos lugares, não fazia barulho e não ocupada muito espaço, como se pudesse se esconder em qualquer vão ou curva, enquanto isso Tapio era como uma sombra, parecia fazer parte de tudo, do ambiente, da estrada e até mesmo de Louhi que ia na frente. Mas não era só isso, o jovem andava bem mais devagar que os outros dois, que apesar de estarem numa velocidade considerada por muitos alta, demonstravam expressões de quem passeia despreocupadamente admirando a paisagem.
-Não... falta... muito... – o jovem estava ofegante – Esperem...
-Todos em Sirpa são como você? – Louhi perguntou sem sequer olhá-lo.
-Ahn? Sim, eu acho...
-Agora sei, porque precisam de ajuda. – Louhi murmurou baixo, apenas Tapio conseguiu ouvir, não era bem uma ofensa, parecia mais uma nota de decepção.
-Senhorita, Louhi... Me desculpe por antes, mas... Tem certeza que pode nos ajudar?
-Posso, só não decidi ainda se quero.
Finalmente ela virou para olhá-lo, aquilo não era um rosto maldoso, era meramente um rosto desafiador que parecia convidá-lo a um duelo, traços simples e fortes, a boca avermelhada tinha dentes um tanto quanto animalescos e os cabelos presos para o lado caíam em pequenas ondas. Ele não conseguiu se mexer, como uma presa acuada diante de seu predador, os olhos dela eram de um azul quase cinza e o diziam que um movimento era o bastante para ser atacado. Louhi era uma jovem, de aparência bonita para muitos, mas de hábitos e acessórios não tão comuns.
-Eu não gosto quando pagam pouco e nem sabem o que é pra ser feito. – Louhi murmurou puxando uma luva preta que não cobria os dedos, presa a sua cintura, a calçou na mão direita. – Mas por outro lado, o mestre Ukko pediu...
-O que vocês são dele?
-Alunos. – Tapio comentou gentilmente – Há um certo tempo atrás quando notou que já estava enferrujando, o mestre Ukko se juntou a outro especialistas para ensinar sucessores em seus ofícios.
-Depois que nos formamos, decidimos continuar com o mestre Ukko. – Louhi comentou com um breve sorriso – Afinal ele era nosso melhor professor.
-E vocês os melhores alunos? – o jovem perguntou impressionado.
-Segundo todos os outros professores nós éramos os piores. – Tapio comentou sorrindo divertidamente. – Mas o velho Ukko disse que só faltava vontade para Louhi e para mim motivação.
-Mas não adianta se interessar tanto, as aulas acabaram. – Louhi falou de maneira definitiva.
-Como assim?
-Os outros professores já morreram, só sobrou o Ukko e ele não ensina mais. – Taipo comentou de maneira nostálgica – E acho que ainda vai levar muito tempo para os alunos se juntarem e virarem mestres.
-Se sobreviverem... – Louhi acrescentou voltando a andar. – Chega de conversa, vamos acabar logo com isso.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Desajuste

Eu sei o que devia sentir,
mas não cheguei nem perto.
Nada de arrepio, nem tremi,
sem bem calor ou frio certo.

Eu sei bem o que devia dizer,
educada e sutilmente, sorrindo.
Mas acrescentei sem querer,
acidental insulto assumido.

Já não sei bem como fazer,
pra sentir o que eu devia.
Já não sei bem como explicar,
o que devia, mas não dizia.

Eu sei bem o que devia pensar,
toda vez que não há resposta.
Mas cansa tanto especular,
procurando razões tortas.

Eu sei bem o que devia fazer,
carinho e agrado, com jeitinho.
Mas a mão pesa, sem querer,
e assim eu me descaminho.

Já não sei bem como organizar,
os pensamentos que eu não tive.
Já não sei bem como ajustar,
minhas ações ao que se exige.

E se sem saber nada, acaba assim,
Desajustada a regras simples.
Imagina quando, me der por mim
e descobrir que eu sei é tudo.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

12° Sino


The nightime brings the twelve bell. Ringing down the time, passing through my bed, sliping into my sheets, whispering promises to me. Can you hear it ringing? Like a mute phone call, no matter how I answer, there is no voice answering back.
Nightime brings the last glance of light. Wandering stars, trying to hold on to the clouds, so they won’t fall from heaven. I know what can happen if they fall, the big boom devastating life on the ground, compressing my dreams, breaking my soul in two.
I can see their shine, I can hear the ringing calling my name. I can fell the night coming down, embracing my old self. Time floats away, take my mind to this secret hideaway. Where the stars fall back to the highs, and the bells silently anounce midnight.


A noite trás o décimo segundo sino. Tocando o tempo, passando pela minha cama, escorrengando para os meus lençóis, me sussurrando promessas. Você pode ouvi-lo tocar? Como uma ligação muta, não importa como eu responda, ninguém responde de volta.
Noite trás o último vislumbre de luz. Estrelas viajantes, tentando segurar nas nuvens, para não cair do céu. Eu sei o que pode acontecer se elas caírem, o grande boom devastando a vida no chão, comprimindo meus sonhos, quebrando minha alma em duas.
Eu posso ver seu brilho, posso ouvir os toques chamando meu nome. Eu posso sentir a noite descendo, abraçando meu velho eu. O tempo flutua, leva minha mente para esse esconderijo secreto. Onde as estrelas caem de volta para as alturas, e os sinos silenciosamente anunciam a meia noite.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Sensibilidade

Pode sentir meus lábios?
Mordendo.
Pode sentir minhas mãos?
Tremendo.
Pode sentir minha mente?
Cedendo.
Pode me sentir?
Te envolvendo.


Luzes machucam meus olhos,
Palavras meu orgulho vão.
No escuro todos se enganam,
Não se nota a real intenção.


Pode ouvir meu murmurio?
Crescendo.
Pode sentir o meu frio?
Estremecendo.
Pode sentir meu olhar?
Escurecendo.
Pode me sentir?
Perdendo.


A dor desperta, melhor que o dia.
Toda noite alerta, monstro, escuro,
Coisas acontecem na casa vazia.
Não se sabe bem o seu futuro.


Pode me sentir?
Talvez não.
Pode me ver?
Mero borrão.
Pode me ouvir?
Me diz então...
Como fazer dormir,
Cada sensação.