domingo, 18 de julho de 2010

Sob o Mar (10)

Ahti sentia frio na barriga e um leve formigamento atrás da nuca, quando deixou Helmi não tinha certeza do que fazia, mas faria mesmo assim. Iria acreditar nela, em Hella... Confiar. Sempre estivera seguro das coisas certas e erradas, o que fazer, responsabilidades, mas agora, tudo em que acreditava era naquela luz dançante, naquele calor envolvente. Nadou para fora das paredes de coral, para longe da segurança cheia de dúvidas e medos, deixou para trás até seu tridente.
-Hella!
-Ahti... O que está fazendo aqui? - a sereia perguntou girando. - Não devia estar mantendo Helmi segura?
-Contra o que? - ele encolheu os ombros - Há algo a temer?
-Não... Não há. - ela respondeu sorridente. - Mas você nunca acreditou nisso, Ahti... Você sempre se preocupou.
-Com você... Mas se você não tem com o que se preocupar, então... Nem eu. - ela brilhava, como uma ninfa* das nascentes, um brilho suave e acolhedor, pura luz.
-Você finalmente percebeu, então? - ela o abraçou - Eu estou bem Ahti, sempre estive... E você...
-Shhh. - ele pediu a apertando nos braços - Eu acho que eu entendi...
-Entendeu?
-Só temos a temer o que nós mesmos causamos... - ele murmurou - Algo assim...
-Você pode ouvir, Ahti?
-Ouvir?
-... - ela torceu os lábios e ele ouviu um múrmurio em sua cabeça.
-O que é isso? - ele perguntou virando procurando a origem do som.
-Ori. - ela sorriu. - Então você ouve mesmo!
-Dá onde vem essa voz?
-De você, Ahti. - ela respondeu - E não é só uma voz...
-É o que?
Ela se afastou ainda o olhando ergueu a mão e ele a via brilhar, ela moveu-se na água e a luz respondia, fluía...Ela estendeu a mão na direção dele e os dois sorriam, não entendeu muito como, mas ao esticar o braço viu algo enroscar-se nele, deslizar até o pulso, depois dar a volta até a palma e esticar-se na direção da mão dela. Luz... Pura luz...
-Eu quero te mostrar algo, Ahti...

*Ninfas são fadas que vivem em fontes de água pura.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Sob o Mar (9)

-Ahti, se você sair você também não vai poder voltar! Estarão os dois exilados de Helmi!
-E devo deixar Hella sozinha?
-Ela saiu porque quis... - torceram o nariz.
-Hella nunca conseguiu ficar presa a lugar nenhum... - o golfinho comentou em tom paternalista - Fechar Helmi foi o mesmo que exilá-la.
-Ela sempre foi uma garota problema, que lide com os próprios agora! - alguém comentou com desdém.
-Por que vocês estão tão nervosos? - Ahti perguntou.
Era estranho, pela primeira vez podia ouvir e sentir tudo do ponto de vista de Hella, toda aquela preocupação exarcebada, brados indignados e exclamações não faziam o menor sentido. Tinha vontade de rir ao lembrar-se que era exatamente assim antes... Aquela vozinha na sua cabeça também ria o lembrando de que ele era chato daquele jeito. O golfinho se aproximou de Ahti com uma suposição.
-Talvez a liberdade e dúvida os assuste.
- Irresponsabilidade e desobediência não é liberdade!
-Talvez seja. - Ahti cortou - Talvez Hella saiba melhor que nós a resposta...Se estão tão bravos é por que estão assustados... Com o que? Estão perfeitamente seguros aqui...
-Não é aqui, é lá...- o golfinho comentou - O oceano aberto e escuro, as profundezas do mar e todos que se escondem e vivem nela... É isso que assusta.
-Isso é problema de Hella! Ela que está la fora!
-Sim, mas vocês que estão tremendo. - Ahti completou sorrindo. - Ela não tem medo... Mas vocês tem medo por ela... Por que? Já se perguntaram?
-Por que? Porque...
Mas nao havia resposta, desde que Helmi fora criada não havia resposta. Por que medo? Sempre estiveram juntos e seguros, mas o oceano aberto.... Continuava escuro e misterioso, continuava sendo amedrontador. Mas Hella não tinha medo, Hella sabia melhor a resposta... Sabia melhor algo que ele não sabia, mas começava a vislumbrar, num feixe de luz dançando nas águas.

domingo, 11 de julho de 2010

Dormir pra que?

É preciso dormir, descansar o corpo,
mas minha cama estará aqui amanhã.
Como está aqui hoje e estará depois.

Você só está hoje, ainda que um pouco,
e pode desaparecer pela manhã.
Não deixo o que tenho agora pra depois.

Então deixa os ponteiros rodarem,
deixa as horas passarem sem dó.
Aproveitando os segundos e sobras,
exaustão, satisfação... Pó ao pó.

Sob o Mar (8)

Ele ficou paralisado, entre a Hella que via a sua frente e a memória que voltava aos poucos à sua mente... Brilhava, incendiava sua mente de tamanha luz até que ficara cego, agora lembrava o que acontecera. De algum jeito surgiu luz, mais luz do que jamais vira vindo de Hella e seu redor, não podia enxergar, mas algo o levou pela mão e quando se deu conta todo o fundo do mar brilhava, inumeros focos de luz e feixes brilhantes.
-Hella, aquele dia...
-O que? - a sereia perguntou o encarando.
-O que é... - mas a frase ficou pela metade, seus olhos caíram sob o colar de Hella que brilhava.
Devia ter sido isso, o colar que brilhava, dele viera a luz. Sacudiu a cabeça enquanto se afastava sem entender o que ela realmente queria dizer. Coisas de Hella, ela era despreocupada assim mesmo, a sereia o foi seguindo com os olhos e então escapuliu por uma dsa aberturas no coral para fora de Helmi. Por um momento ninguém notou sua ausência, mas só por um momento. Ahti ouviu algo dentro de sua cabeça:
-Vai ficar tudo bem... - não reconhecia a voz.
-Hella? - chamou, mas não havia ninguém ali.
-Ahti, olhe lá fora... - a voz insistiu - Vai ficar tudo bem...
Demorou algum tempo para ceder a vozes que vinham de lugar nenhum, mas finalmente nadou até uma das frestas do coral, assistindo um feixe de luz dançar nadando ao redor de Helmi, um brilho azulado em seu centro e em uma de suas piruetas ao aproximar-se Ahti reconheceu, ainda que de longe Hella. Primeiro ficou bravo e preocupado, depois apenas hipnotizado...
-Está tudo bem. - a voz insistiu e ele concordou com a cabeça.
-O que ela está fazendo? Ninguém pode sair! - algum dos tritões exclamou.
-Ela sempre foi assim! É perigoso!
-Que vá e não volte dessa vez! - uma terceira pessoa dizia.
-Calem a boca. - Ahti mandou, estranhamente soava mais como Hella do que como ele mesmo. - O que vocês sabem?

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Sob o Mar (7)

-Isso é inaceitável. - o tom de voz era definitivo.
-... - ele não conseguia ou podia responder àquilo.
-Helmi está selada, ninguém mais deve sair ou entrar. Isso é tudo, Ahti.
-Sim, meu Senhor. - o tritão respondeu com uma mesura.
Nunca pensara direito naquilo, quando fora atrás de Hella Helmi ficou em polvorosa, e o fato do chefe da guarda sumir e depois passar dias desmaiado deixou todos assustados. O Rei mandava e assim seria feito, Helmi agora era mais uma ostra que uma pérola, fechada e segura. Entendia os motivos, mas se sentia desconfortável. Era o melhor para todos, era o seguro, devia seguir com seus deveres, mas o rosto de Hella saindo em alta velocidade para fora das paredes de coral lhe vinha a mente, ela sempre gostara de nadar no oceano aberto.
-Isso é ridículo! - Hella gritava com dois tritões que a seguravam pelos braços - Me soltem!
-Temos ordens, senhorita. Ninguém deve sair ou entrar, é muito perigoso!
-Perigoso? Perigoso? Por que não se enfiam numa caixa e vivem nela então? Nada mais seguro!
-Hella, já chega! - Ahti gritou se aproximando - Podem soltá-la eu cuido dela...
-Ahhh cuida? - ela bateu com a nadadeira no nada torcendo o rosto. - Isso é coisa sua seu....
-São ordens do Rei. Se nem mesmo os tritões estão seguros os outros... - ele baixou o rosto - Como se adiantasse falar com você.
-Não me chama de burra!
-Eu não falei isso! Você só é infinitamente teimosa e irresponsável! - ele gritou de volta.
-E isso nunca foi problema seu! - ela cruzou os braços. - Intrometido!
-Tem razão... - ele estava cansado, falava baixo - Mas a segurança deste lugar é, você não pode sair.
-Ahti...
-Por favor, Hella...
Ela nunca o vira tão quieto, tão suave, tão... Ele parecia ter encolhido, não tinha metade da energia, autoridade e pompa de sempre. Acabou concordando com a cabeça, nunca imaginara que um dia veria Ahti como o garotinho de sua infância, apenas um garotinho. Ele fez menção de virar-se parar ir embora, mas Hella lhe puxou a mão e o abraçou com ternura. Estava sempre causando problemas para ele, por isso ele estava tão cansado? Por todo aquele tempo cuidando dela?
-Vai ficar tudo bem, Ahti. - ela prometeu.
-Hella... - fechou os olhos por um momento, algo brilhou em sua mente.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Sob o Mar (6)

Tudo estava tranquilo, silencioso e morno... Sentia um leve formigamento atrás da cabeça e os olhos pareciam finalmente descansar conforme começavam a abrir, a princípio embassados, depois mais nitidamente viu a luz fluorescente de um dos peixes contra a parede de coral. Respirou fundo, nada doía, mas não sentia muito bem seu próprio corpo, endireitou-se levantando e tudo começou a voltar... O oceano aberto, os tubarões.
-Os tubarões! - ergueu-se num susto e quase atropelou o golfinho - Os tubarões, onde...?
-Hey! Segure seus cavalos marinhos, calma!
Não sabia se ria, se suspirava, se gritava... Numa mistura de alivio, raiva e sabe-se lá mais o que o nome entalou na garganta: Hella. Ali na sua frente, sorridente, com o mesmo ar despreocupado e negligente de sempre, desde que eram crianças. Ahti não pensou duas vezes antes de segurá-la pelos braços e encarar fundo em seus olhos.
-Sua...
-De nada - ela respondeu alegre. - Você dormiu dias e mais dias, sabia?
-Estavamos preocupados, apesar de não estar ferido não é comum dormir tanto. - o golfinho emendou.
-Dormir... Hella...
-Vejo que vocês tem muito o que conversar, além das aulas que tenho que dar, vou deixá-los...
-Hella! - Ahti gruniu puxando a mão da sereia.
-Por que está me olhando assim?
-O que aconteceu? Você se machucou? Como viemos parar aqui? E os tubarões?
-Calma, uma coisa de cada vez... - ela agitou as mãos virando o rosto - Estamos bem, está tudo bem para todos.
-Para de falar isso...O que houve?
-Você não lembra de nada? - ela torceu o nariz, depois riu. - O que você estava fazendo lá de qualquer jeito?
-Eu fui buscar você sua irresponsável! Eu falo que o oceano é perigoso, mas você é teimosa sua inconsequente! - ele gritou cruzando os braços.
-Ninguém pediu pra me seguir! Por que você não vai cuidar da vida de outra pessoa?
Os dois deram as costas murmurando: idiota. Depois nadaram em direções opostas, Hella lembrava de tudo, Ahti fora atrás dela... Estava cercado por tubarões e podia ter morrido, ainda assim a mandou fugir. Aquele idiota, lembrava que por um momento tremera inteira pensando que tudo podia dar errado, mas por algum motivo vendo a profundeza dos olhos dele, ouviu aquela voz e tudo fcou bem. Mas ele não lembrava de nada, devia ter batido a cabeça.
-Irresponsável...- Ahti balbuciava se afastando. - Eu me preocupo com você sua idiota...

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Sob o Mar (5)

Mesmo que pudesse lembrar de tudo nitidamente, Hella sabia que jamais poderia definir o que a estrela do mar lhe mostrara. O enorme cristal azulado que ressoava e reluzia no fundo do oceano e a face feminina que lhe sorria lá de dentro, Ziya transmitia paz, conforto... Segurança. Nunca se sentira tão bem antes na vida. E de alguma forma, entendeu a mensagem, podia ouvir aquela mesma voz ao seu ouvido:
-A luz em si e ao seu redor, nenhum mal ou escuridão a envolverão...
Despediu-se sorridente, de alguma forma toda aquela conversa chata do golfinho sobre como Helmi surgiu, para se unirem e protegerem fazia sentido. Sem luz as pessoas tinham medo e sofriam, por isso se reuniram com a pouca luz que restava. Enquanto nadava seus olhos vagavam e aqui e ali nas profundezas pequenos pontos de luz a guiavam.
-Ori... – ela sorriu nadando mais rápido.
Então uma faixa cortou as águas à sua frente, ainda estava longe mas reconheceu o feixe de luz dourada. As lanças dos tritões faziam aquilo, mas ainda estava longe de Helmi... Ainda era oceano aberto. Uma sensação desagradável formigou em sua nuca conforme via as rochas ao redor e lembrou-se dos tubarões. Outros clarões, um tritão lutava...
-Ahti! – exclamou pasma lembrando do chefe da guarda, seu amigo de infância rabugento – Ahhh idiota, idiota...
Nadou tão rápido quanto pode para assistir Ahti afastando dois tubarões com sua lança, sozinho não era a mesma coisa que espantá-los em Helmi, sozinho ganhara um ferimento profundo no braço e o sangue se espalhando só parecia fazer os tubarões atacarem mais ainda. Hella hesitou por um momento agarrando a jóia em seu pescoço, a luz irradiava e aquecia seu rosto.
-Ahti! – chamou e o tritão se virou na direção dela.
-HELLA SAI DAQUI! – ele mandou agitando a lança conforme um tubarão ia na direção da sereia.
-Parem já com isso! – ela mandou girando na água, foi parar entre o tritão e os tubarões, abrindo os braços. – Chega!
-Hella! – Ahti gritou.
-Está tudo bem... – ela murmurou ao mesmo tempo em que ouvia a voz em seus ouvidos, Ori... Quente e suave. – Está tudo bem...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Pausa pra um poema

Pintei o céu azul turquesa,
do violeta ao dourado teu.
Colhi as rosas e violetas,
antes dos sonhos de Morfeu.

Entreguei-te sem palavras,
tudo que poderia ter e dar.
Aceitou ainda que encabulada,
sem nada poder retornar.

E antes que acabe-se tudo que temos...
Aceita meu beijo, aceita... E acabemos...
Tudo em mim para ti foi se acabar.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Sob o Mar (4)

-Aqui, Hella... Hella!
Ela não sabia de quem era aquela voz, acordou com ela e nadou a seguindo para fora da rocha, se fosse até a superfície poderia ter algo pra guiá-la, mas era perigoso. Permaneceu nas profundezas com aquela voz, a luz azulada do colar a guiando e confortando. Quem estava chamando? Mais fundo, a pressão da água a fazia encolher, mas continuou, até ver algo à sua frente.
-Hella...
-Que...? – murmurou apertando a vista.
Luz, pontos, depois faixas, mexiam, dançavam... Nadou mais depressa, eram algas? Plantas? Coral? Era tudo, brilhantes e reluzentes, em cores vivas dançando conforme a água movia saída de pequenas frestas nas rochas do fundo do mar. Tudo brilhava e iluminava ali, o cenário alegre e iluminado que nunca conheceu fora de Helmi. Não pode conter o sorriso que brotava em seu rosto.
-Ora, ora... Visitas! – uma estrela do mar murmurou se arrastando sobre uma pedra, brilhava num tom de laranja. – Quem temos aqui?
-Aonde eu estou? – Hella perguntou olhando ao redor encantada.
-Mal educada, quando visita alguém se apresente primeiro! – uma esponja bradou balançando com a água.
-Desculpe-me, sou Hella. Eu estou...perdida. Pode me dizer que lugar é esse?
-Não se assuste menina, ela é nervosa assim mesmo, não gosta de visitas. – a estrela murmurou se aproximando, indicando a esponja com uma de suas pontas. – Hella, você disse? Que nome bonito... E que colar bonito você tem também...
-Era de minha mãe.
-Não, não era! – a esponja gritou.
-Ignore, ignore... – a estrela repetiu – Você está em Ziya*! A luz do oceano... E essa bela jóia em seu colar, veio daqui. Sim, sim.
-Essa jóia? – Hella segurou o colar. – Eu ouvi alguém me chamar até aqui...
-Uma voz baixa?
-Sim.
-Suave? Acolhedora? – a estrela insistiu.
-Como sabe?
-É a voz de Ori**! Todos ouvimos por aqui... – a estrela do mar comunicou – É a voz de sua luz!
-Luz? – Hella torceu o nariz. – Eu não tenho luz é esse colar...
-O colar tem luz, você tem luz... Todos temos luz, menina tola. – a esponja murmurou ranzinza.
-Quando as águas escorreram da superfície e inundaram tudo, a luz da superfície deixou de atingir os pontos mais distantes... Veio a escuridão... – a estrela recitou se fechando – Foi quando surgiu Ziya, trazendo a luz para as profundezas...
-Achei que Ziya era esse lugar...
-Foi chamado em nome Dela. – a estrela concordou se abrindo – Pois foi aqui que ela deitou-se e nunca mais acordou. Ela trouxe a luz e a presenteou a todos, para que pudessem guiar-se nas profundezas. Para que não houvesse medo...
-Medo?
-Sim, a escuridão trás a incerteza e a incerteza trás o medo... O medo deixa todos frios e maus... – a estrela murmurou. – Mas se você ouvir Ori, terá luz e ficará livre do medo e da escuridão.
-Tudo isso é muito bonito, mas como eu volto pra casa?
-Deixe Ori a guiar. – a estrela respondeu – Mas antes venha comigo... Vou mostrar como afastar o medo e a escuridão...
-Mas...
-Venha, venha...- a estrela pediu agitando suas pontas. – Só quem ouve Ori e encontra Ziya, pode espantar as sombras e trazer de volta a luz as profundezas... Antes que tudo se perca em medo.
Concordou com a cabeça sem querer, Hella lembrou de todos em Helmi, tão felizes dentro das paredes de coral e tão receosos no mar aberto... Medo e escuridão. Era isso que os mantinha presos nas paredes seguras? Era isso que os fazia tão sérios e nervosos? Ahti? Era estranho imaginar que um tritão podia estar com medo, medo de que? Mas já que estava ali, decidiu obedecer a estrela, afinal tudo lá era lindo e luminoso, era o lugar mais pacífico que já viu.

*Ziya, quer dizer brilho em árabe.** Minha luz, em hebreu.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Sob o Mar (3)

-Achem... eu sinto o cheiro! – um dos tubarões falava enquanto se separavam nadando entre os rochedos.
Hella tentou ir mais fundo nas algas, se esgueirava como podia para longe apertando o calor para que a luz não saísse e denunciasse aonde estava. Uma vozinha insistente vinha por trás de seu ombro: Hella, Hella, aonde você se meteu agora? Sentiu pedras caírem quando um tubarão bateu com a cauda em um dos rochedos e acabou soltando uma exclamação de susto... Olhos brilharam na escuridão das profundezas.
-Vem cáááá!
Nadava o máximo que podia para longe e para o fundo, tentava se esconder de novo, tentava fugir. E aquela voz estranhamente familiar em seu ouvido: Hella, venha cá! Ao passar numa área mais estreita sentiu enguias lhe queimarem a cauda, mas continuou nadando, tateou no escuro um buraco numa rocha e se enfiou lá dentro, apertando a jóia, esperando que eles fossem embora, a dor insistente.
-Eu to com fome! – o tubarão reclamava, as vozes sumindo na distância.
Estava a salvo? Segura? Relaxou um pouco, fechou os olhos tentando se acalmar. Longe dali as crianças trocavam objetos em Helmi, longe dali seu professor agora dava aula para outra pessoa, dando piruetas para chamar a atenção das crianças. Ahti devia estar mandando alguém vigiar os muros, outro ir ajudar a cuidar das crianças... Estavam todos bem e fazendo o que deviam fazer, ela não tinha que fazer nada, podia ficar ali e dormir.
-Ficar só... só.... só ficar aqui... – murmurou se ajeitando, soltou a jóia e a luz azulada iluminou seu pequeno refúgio.

-Ahti. Você viu Hella? – o golfinho perguntou circulando o tritão.
-Ela estava lá fora com as crianças quando fui buscá-las. – ele respondeu endireitando o torso e deixou os olhos azuis vagarem juntos ao do golfinho – Não voltou ainda, professor?
-Não, ainda não a vi... Queria lhe dar os parabéns, achei que você sabia aonde ela estava, já que são amigos de infância.
-Não somos amigos há muito tempo, professor... – Ahti respondeu virando-se – Deve estar nadando ao redor da cidade...
-Não está preocupado? – o golfinho insistiu.
-Ela já não é uma criança, faz o que bem entender...
-Entendo. Pra esse lado não fica a saída? – o golfinho perguntou como quem não quer nada vendo o tritão mover-se.
-Como guarda tenho que cuidar de todos de Helmi.
-Você é um bom guarda, Ahti. – o golfinho murmurou o vendo sumir de vista. – E um bom amigo... Agora, aonde estão meus novos alunos?