sexta-feira, 5 de setembro de 2008
12. Ciúmes
-Você não achou que ela era a única a me usar de comida, achou? – sorriso de valentão que gosta de implicar com as outras crianças, Korone adorava aquele tom.
-Não, eu... Eu meio que esperava algo assim. – Azure respondeu dando um passo a frente. – Eu não sei exatamente como isso tudo funciona, mas não a trate com tanta violência assim...
-Violência? – Korone deu risada.
-Não é nada, Azure. – Mika falou e era sincera, mas foi ignorava pelos dois que trocavam olhares mortais. Korone parecia adorar fazer os outros se sentirem mal ou com ciúmes.
-Eu não sei como alguém que trata uma garota assim tem tantas admiradoras...
-Não sabe mesmo?
Korone sorriu, aquele sorriso lascivo que tantas garotas já viram fez Azure corar e se virar enquanto andava puxando Mika pela mão. Korone deu risada, não caminhou com eles e sim aproveitou por algum tempo o bom humor que ganhara do outro. Tantos dias se passaram e era apenas a segunda vez em que Azure presenciava o estranho acordo entre dois monstros, por um momento pensava já ter esquecido aquilo e tudo era normal. Mas toda noite ele lembrava ao olhar o sorriso pontiagudo dela, sentia um desconforto dentro de si, uma distância que ele não podia ultrapassar.
-Não deixe o Korone te irritar, no fim ele é que nem qualquer criança carente de atenção.
-Não precisa me consolar, eu não estou com ciúmes... – Azure falou, um pouco mais frio e distante do que o normal. Ela calou e em breve ele emendou – Desculpe é que na verdade eu tenho inveja do Korone.
-Inveja?
-Ele é que nem você, não é?
-Não exatamente... Eu nem tenho certeza do que ele é. – Mika respondeu com sinceridade, assim como por tanto tempo não soube o que Ângelo era, até hoje não sabia o que o Korone era.
-De qualquer jeito, ele não é humano como eu. – Azure falou soltando um longo suspiro enquanto caminhava. – E por isso mesmo, talvez ele te entenda de um jeito que eu nunca vou entender... Ele pode alcançar uma distância que eu nunca vou conseguir.
O silêncio se esticou entre os dois, apenas o som dos passos na calçada e trechos de conversas de outras pessoas que iam passando. O céu se coloria e ela apertava mais forte o braço dele, não por medo do anoitecer como costumava ter, mas uma certa ansiedade quanto àquela distância invisível que separa aqueles que são alguma coisa dos que não são, ela não era humana.
-Está com fome? – ele perguntou parando de andar, murmurou um desculpe perguntar depois de ver os olhos dela arregalados em sua direção.
-Não pense nisso... – podia enxergar os pensamentos dele claramente.
-Qual a diferença? É sangue do mesmo jeito e eu não ligo de... – ele calou a boca, não por vontade própria, mas por que a dela estava sobre a dele, os lábios dela tremiam de frio mesmo estando quente.
-Você não sabe do que está falando... Por favor, nunca mais sugira isso.
-Está bem. – Azure concordou continuando a andar, pensou ter ouvido ela murmurar algo, mas não tinha certeza. Esse algo era: eu só posso beber o sangue do Korone.
A despedida foi breve, banhos de água fria que escorriam colo gelo pelas suas costas não bastaram para fazê-la parar de sentir aquelas ondas de calor e antecipação. Cada vez mais aquilo acontecia, não era fome, era simplesmente uma vontade que a invadia de cravar as presas em alguma coisa, era como luxuria. Aos poucos entendia porque fidelidade não caminhava ao lado dos vampiros, não era apenas fome, era aquele calor e urgência de morder algo. Não era só comida, era um vicio.
-Por que você fez aquilo? – Mika perguntou do topo da escada, Korone tinha acabado de chegar e subia os degraus como quem desbrava um mistério.
-Eu estava com fome... – Ele respondeu sorridente.
-Não, não estava... – ela desceu alguns degraus ao encontro dele, sem desviar o olhar daqueles olhos – Você quase não comeu, você só queria perturbar o Azure, não é?
-Eu consegui? – ele riu.
-Não.
-Quer um gole? – Korone perguntou virando o pescoço pra ela.
-Também não... Boa noite, Korone.
Ele não respondeu, apenas sorriu e caminhou pro próprio quarto. Aquele sorriso de triunfo de alguém que rouba no jogo e sabe que vai ganhar, no meio da madrugada ele acordou com o som da porta se abrindo, mas continuou de olhos fechados. Ouviu os passos e sentiu quando a cama ganhou o peso de mais uma pessoa, um murmúrio muito baixo e ininteligível foi dito, o que era pra ser: eu odeio essas coisas que você faz. Soou apenas como respiração pesada, no fundo do coração dela, tudo que queria era matar a fome para não acabar machucando Azure, mas aquele corpo era feito mais do que de dentes e um coração.
-Mudou de idéia? – ele riu ainda deitado abrindo os olhos, sentindo a respiração sobre o seu pescoço – Toma cuidado pra não manchar a cama.
11. Amigos
-Eu não o conheço bem o bastante pra falar nada... – Mika resmungou.
-Mas vocês eram amigos, ele foi o primeiro que você conheceu aqui e até moravam na mesma casa. – Beau falou sem entender a afirmativa da amiga.
-Não quer dizer nada, no fim eu não sabia nada dele. Nem o que ele era, nem o que sentia... – a verdade era que ela estava se sentindo mal.
Ângelo sabia mais sobre ela do que ela sabia sobre ele, sabia tanto que aquilo o deixou irritado e enciumado, o deixou no ponto de atacá-la só pra que ela soubesse que ele estava ali do lado o tempo todo sendo sumariamente ignorado por tanto tempo. Agora que ela parava pra pensar, Ângelo era o único que estava sempre sozinho, mesmo sendo um Inccubus ele não tinha nenhuma garota atrás dele diferente de Korone. Só agora ela tinha percebido, que na verdade ele não era assustador ou mau, era só uma pessoa muito triste.
-No que você está pensando, Mika? Mika? – ela se levantou sem responder – Onde você vai?
-Lugar nenhum. – Desistiu e voltou a se sentar.
Tinha que esperar as aulas passarem, olhava uma hora ou outra para a carteira de Korone que como costumava fazer nas aulas teóricas estava dormindo ruidosamente, um pouco mais distante Beau estava sentada mexendo nos cabelos e logo na frente dela Ângelo anotava tudo concentrado nos ensinamentos. Quando o sinal tocou ele desapareceu nos corredores antes que ela pudesse dizer alguma coisa, acabou indo parar num dos ensaios com Azure sem ter a chance de falar o que queria.
-Está tudo bem? – Azure perguntou lhe dando um beijo na testa, ela tinha se perdido em pensamentos de novo.
-Só foram dias agitados, acho que fiquei cansada... – Mika omitiu a verdade, não via motivo em contar a Azure sobre o que aconteceu e também nem queria tentar imaginar qual seria a reação ao saber.
-Se quiser podemos encerrar por enquanto, ensaiar pensando em outra coisa não vai adiantar. – Ele falou pegando as partituras do dueto com intenção de guardá-las.
-Não. Vamos passar só mais uma vez, por favor?
-Está bem...
Ele voltou a se sentar ao piano, cada nota a deixava um pouco mais consciente de onde estava, gostava daquele música, por mais que não entendesse muito de toda aquela arte. A melodia começava triste, como alguém perdido no meio da escuridão, falava sobre o tempo e os lugares. Depois a música girava e as notas ficavam mais altas, falava sobre pessoas que mesmo sem tempo, se encontravam naqueles mesmos lugares. Pessoas que se encontravam, de algum jeito e por algum motivo. No final da música sua garganta estava quente, soltou a letra da música sobre o piano enquanto ouvia seu coração bater num ritmo diferente.
-Alguma coisa errada?
-Desculpa, eu tenho que fazer uma coisa! Até amanhã... – e saiu correndo da sala sem sequer ouvir quando ele gritou seu nome.
O colégio já estava quase vazio, Korone estava jogando vôlei na quadra aos fundos, mas não era ele que ela estava procurando. Correndo pelos corredores ouviu o barulho de porta se fechando e parou, entre ela e a saída mais próxima estava de novo Ângelo. Parou pra recuperar o fôlego de tanto correr, ele ajeitou os óculos no rosto.
-Eu achei um apartamento barato e perto do colégio, já tirei todas minhas coisas da casa.
-Eu sei... – Mika respondeu ainda sem fôlego enquanto ele se aproximava a passos lentos como quem dá oportunidade dela voltar a correr para fugir.
-Já pedi desculpas também...
-Eu não vim aqui por desculpas, Ângelo. – Mika falou se endireitando.
-Cansou do príncipe encantado então...? – ele perguntou erguendo o rosto dela segurando o queixo, aquele mesmo sorrisinho demoníaco, como nunca o tinha visto antes?
-Não. – O abraçou, se pudesse ver o rosto dele naquele momento seria o de mais puro choque. – Desculpa não ter prestado atenção em você antes, eu nunca me dei conta de nada. Mesmo estando tão perto todos os dias eu nunca percebi você. Me desculpa e por favor, podemos ser amigos de novo?
-Amigos? – ele deu risada a afastando, segura pelos ombros, sentiu um leve arrepio, mas não estava mais com medo. – O que faz você pensar que eu não vou te atacar de novo?
-Você pode ser um Inccubus, mas não é um completo cretino, Ângelo.
-Está bem, vamos ser amigos, com uma condição... – o mesmo sorrisinho, as pernas dela tremeram. – Nunca mais fique sozinha assim comigo. Está bem?
-Ângelo...
-Eu estou falando sério, Rinmotoki. – Ele ajeitou os óculos e deu um passo para trás – Eu gostaria muito de poder ser seu amigo e passar tempos juntos, mas eu não posso ir contra minha natureza. Se você ficar sozinha comigo de novo, mesmo que você grite, chore ou diga que é horrível... Eu não vou me controlar.
-Eu entendi. – Ela falou desviando os olhos e andando até a escada – O Korone vai jogar com o time de basquete no sábado, você devia ir comigo, a Beau e o Azure torcer por ele...
Não esperou a resposta, apenas desceu as escadas correndo sabendo que cada segundo que ela ficava perto dele sozinha era uma batalha mental de um Inccubus contra seu auto controle. Não teve a oportunidade de ver o sorriso dele, esperava que ela o odiasse até o fim dos tempos e achasse o que todos que conhecem um inccubus acham, demônios canalhas que deviam ser mortos. Mas não... Vamos ser amigos? Ele não conseguia segurar o riso. Ele fora honesto com ela, mas ela ainda não conseguira chegar nesse ponto, algumas verdades ainda se escondiam enquanto ela ignorava muito mais coisas em sua vida que depois ela notaria a importância.
10. Medo
-Você devia ir embora... – finalmente ela falou olhando pro lado.
-Você quer que eu vá embora? – ele perguntou com a voz baixa.
-Para de falar assim... Você me viu bebendo o sangue do Korone! – Mika exclamou apertando a caixinha preta.
-Eu sei que você deve estar pensando que eu devia ficar assustado ou te odiar, qualquer cara normal faria isso. Talvez gritar ou te chamar de monstro... – ela era mesmo um monstro, uma vampira. – Mas a verdade é que eu fiquei aliviado. – ele sorriu.
-Aliviado?
-Eu sempre via você e o Korone, às vezes eu cheguei a achar que você queria ficar com ele e não comigo. Mas pelo visto a relação de vocês é bem diferente do que eu podia imaginar...
-Azure...
-Eu não me importo com o que você é, Mika. E pelo que eu vi você não parece estar machucando ninguém, então qual o problema? Eu não quero ir embora.
Aquela noite foi muito surreal, mas de alguma forma foi muito boa a primeira noite em que ela teve a companhia do Azure. Ficaram abraçados conversando, coisas casuais e tudo parecia tão comum ao dia e a dia deles, quando se despediram sua mão estava um pouco mais pesada com um anel nela. Não falaram mais no Korone, era como se acidentalmente se criasse um tabu e eles voltassem ao circulo de normalidade, era estranho pensar, mas parecia que nada tinha acontecido. Por um lado ela estava feliz, por outro havia a dúvida dele talvez não ter notado ainda quem ela realmente era. Beau também foi embora, tinha descido as escadas saltitando e deu um abraço apertado na amiga antes de partir sem saber do que tinha acontecido.
-Eu ainda estou com medo...
O murmúrio foi pra si mesma, continuava preocupada enquanto subia as escadas um passo de cada vez, sem fazer barulho e sentindo que seu coração começara a ricochetear ao invés de bombear sangue. Olhou para a própria mão enquanto andava, o anel era bonito. Parou na frente da porta do quarto do Ani, ele estava parado no portal, sem os óculos ele parecia um outro garoto qualquer, só estava usando a calça e torcia os lábios como se estivesse irritado com alguma coisa.
-O que aconteceu, Ani? A Beau brigou com você? – a pergunta fora inocente, mas ele cerrou o olhar como quem lança um olhar mortal.
-Não, a Beau é ótima. – foi tudo que ele respondeu. – Pode vir aqui um pouco?
-O que foi?
Ele a puxou pelo pulso em seguida batendo a porta para que se fechasse, ela conhecia o quarto de sua própria casa, mas a arrumação excessiva de Ângelo o fazia parecer um dormitório de alguma faculdade. Depois de puxada ele acabou a soltando, ficou parada entre ele e uma das paredes com cara de quem não está entendendo nada, nunca o tinha visto tão transtornado, quanto a ele só queria aliviar seu transtorno nela. Ele avançou dois passos a abraçando pela cintura, Mika se sentia desconfortável naquele abraço.
-O que você está fazendo, Ângelo?
-Não posso te abraçar? – ele perguntou em tom irritado.
-Assim do nada, eu não...
-Você nunca reclama quando o Korone te abraça... – Ele replicou a encarando, parecia realmente irritado e estava. Por algum motivo ninguém notava, mas Ângelo era extremamente ciumento e obsessivo. Ninguém sabia, por que ele era só o cara que tomava conta de todo mundo. A mão dele puxou a blusa dela.
-Para com isso, Ângelo. – Ela mandou o empurrando e indo até a porta.
-Não. – ele segurou a porta com as duas mãos parado atrás dela, dava pra sentir a respiração dele na sua nuca. – Eu não quero parar. Você nunca pede pro Korone parar...
-Isso não tem nada a ver, nós só...
-Só se alimentam? – Ele deu risada, uma risada cínica a jogando de costas contra a porta, levantou o rosto dela com uma das mãos. – O que seu namorado ia dizer se soubesse o que eu sei, Rinmotoki?
-Do que você está falando, Ângelo...? – ela já estava se jogando contra a porta, por algum motivo nunca tinha imaginado nele agindo assim, estava com medo.
-Você esqueceu que eu que cuido dos alunos da turma B? É natural que eu saiba tudo sobre todos e eu sei Rinmotoki, eu sei o que significa beber sangue pra um vampiro.
-Não tem nada a ver... – Mika falou tentando puxar a porta mas ele segurou as mãos dela acima da cabeça.
-Não? – as asas dele se abriram, brancas como de um anjo, com aquele jeito de agir que lembrava um demônio. Nunca perguntara o que realmente ele era, mas estava prestes a descobrir. – Eu vou te mostrar, Rinmotoki. Depois me olha nos olhos e me diz o quanto é diferente de quando você bebe sangue...
-Me solta, Ângelo. – Por que não conseguia se soltar? Era de noite, ela não era uma garota humana e frágil, ele podia se soltar facilmente de Korone se quisesse, porque não dele.
-Você não se solta, porque você não quer... – ele falou baixando o rosto até a blusa dela, segurou o zíper com os dentes para o abrir.
-Quero sim, para com isso! – claro que ela queria se soltar, não sabia porque diabos ele ficara assim do dia pra noite.
-Pode-se dizer que esse é o meu poder, eu sou um Inccubus sabia? Por mais que a razão diga que não é da minha natureza fazer com que o corpo de uma mulher não queria sair de perto de mim... É por isso que você não consegue se soltar, Rinmotoki. Por mais que você seja mais forte, o seu corpo não quer se soltar... – ele falou isso pausadamente, a cada palavra mordia um pedaço da pele dela devagar. Mas não sentia calor, apenas um arrepio gelado enquanto as pernas tremiam. – É bom, não é? Quase como...
-Não, não é! – ela gritou.
-Mentirosa... – ele riu.
-É horrível... – lágrimas escorriam pelo rosto dela, uma careta numa mistura de medo e desconforto.-Horrível... – ele repetiu rangendo os dentes. Não entendia como podia ser horrível, simplesmente não era, mas ele notou cada tom de sinceridade. Soltou ela e foi até a cama colocar de volta seus óculos. – Me desculpe, Rinmotoki.
9. Parabéns
-Parabéns! Hoje você está proibida de ir ensaiar! – Beua gritou a arrastando pelo pescoço.
-Mas...
-Eu já falei com o Azure, o Korone e o Ani também vão pular as atividades da tarde e vamos todos pra sua casa ficar gordos! – Ani era como Beau chamava o Ângelo nos últimos tempos.
-Feliz aniversário, Rinmotoki. – Ani desejou a vendo ser arrastada colégio a fora. – Não vá matar a aniversariante sufocada, Beau.
-Claro, claro... – Beau falou empurrando a amiga de encontrou ao Azure que estava chegando até eles – Leva ela pra casa, eu vou com o Ani buscar o bolo.
-Mas eu...
-MAS NADA! – Beau gritou dando uma mochilada no braço da amiga. – Eu não quero saber se você não gosta de festas ou não precisa de um aniversário, eu gosto então você vai ter que aturar... Até mais tarde! Vem, Ani.
O caminho foi mais longo do que jamais fora, na metade cruzaram com Korone que trazia segura pela cintura uma ruiva que nunca tinham visto antes, parecia mais velha, provavelmente aluna de alguma faculdade próxima. Ele ficara sem opções novas dentro do colégio, foram conversando, trocando risadas e mais cedo do que um piscar de olhos a tarde já corria com bolo de morangos e risadas longas. Os copos de vidro já tinham sido esvaziados e enchidos várias vezes, quando o barulho dos cacos se fez presente.
-Desculpe, eu pego... – Azure falou depois de topar por acidente na ruiva derrubando o copo dela.
-Não precisa, você pode se... – antes que Mika acabasse de falar o cheiro, sangue escorrendo pelo indicador de Azure. A tarde tinha corrido e em breve seria anoitecer.
-É só um arranhão não tem problema. – Ele falou levando o dedo a boca pra parar o sangue.
De alguma forma o momento tinha passado e seu coração aos poucos iam retomando o ritmo normal, por mais que com o passar do tempo as vezes sentisse uma certa tentação ao ver as veias dele ou ouvir as batidas de seu coração, nunca sentira um ímpeto tão forte de simplesmente estraçalhar a pele dele. Mika se esgueirou até a cozinha, se escondendo das suas próprias vontades e jogando água na louça escondendo o som de seu próprio sangue correndo.
-Melhor guardar o bolo... – era Azure abrindo a geladeira e guardando o que sobrara do bolo de aniversário numa das prateleiras vazias.
-Não precisava trazer, podia ter ficado com os outros... – Mika respondeu depressa secando as mãos e desviando o olhar para o pano de prato.
-Konore falou que voltava mais tarde e saiu com aquela garota e a Beau e o Ângelo subiram as escadas acho melhor não ir atrapalhar eles. – Azure respondeu, colocou as mãos nos bolsos procurando algo, mas não estava lá, devia ter esquecido em casa ainda de manhã.
-Entendi... – Mika falou e só depois de respirar fundo conseguiu olhar na direção dele, dando graças que faltava ainda tempo pro anoitecer e que até lá poderia simplesmente dizer tchau e se veriam amanhã.
-Eu preciso fazer uma coisa agora... – ela sentiu um alivio enorme e já ia dizer até amanhã quando ele completou – Posso voltar mais tarde? Ou você vai sair?
-Não vou pra lugar nenhum... – ela não conseguiu acabar a frase, ele a beijou por cima daquela afirmativa.
-Até mais tarde então.
O alivio virou apreensão, por mais que estivesse saindo com ele fazia algum tempo, sempre conseguia estar em casa antes da escuridão, não precisava ficar de boca fechada se preocupando com seus dentes. Mas agora ele ia e talvez voltasse depois que o sol fosse embora, talvez fosse inevitável. Mais cedo ou mais tarde ele ia acabar descobrindo, mas precisava ser tão cedo assim? Ficou sentada na sala abraçando as próprias pernas, não ousava subir as escadas e ouvir qualquer som que Beau e Ani podiam estar fazendo, ficou ali calada olhando pro nada, tentando ter pensamentos positivos e não se preocupar.
-Pode ser pior...
Pode. Talvez Korone só voltasse tarde da noite e ela estaria morrendo de fome, podia acabar machucando Azure no surto da fome. A maçaneta girou e seus olhos âmbar ficaram vidrados nela, a noite já tinha caído enquanto se preocupava e das sombras do lado de fora os cabelos negros de Korone anunciaram que estava de volta, olhou pra ela com um misto de curiosidade e surpresa.
-O que você está fazendo sozinha no seu aniversário?
-O Azure tinha algo pra resolver falou que voltava depois... A Beau e o Ani estão lá encima, então achei melhor ficar por aqui. – Mika respondeu com o queixo apoiado no joelho, os olhos âmbar mareados.
-Você está com uma cara horrível... – Ele falou desabotoando a camisa e sentando na frente dela no sofá. – Anda logo antes que o namorado volte...
Nem falou nada, simplesmente se ajoelhou sobre o sofá cravando os dentes entre o ombro e o pescoço de Korone, saciando a fome com uma mistura de ansiedade e gula. Não conseguiu evitar uma lágrima perdida escorrer sem motivo, como que preocupada com alguma coisa, piscou por apenas alguns segundos e ouviu a porta girar mais uma vez. Se inclinou pra trás, ali, ajoelhada no sofá. A camisa de Korone com manchas de sangue, ela com os lábios vermelhos e os dentes manchados e Azure de pé na entrada.
-Parabéns, sua namorada não é humana. – Korone resmungou se levantando. – Eu vou deixar vocês sozinhos...
-O Ângelo...
-Se você não falar nada, eu não falo... – Korone a tranqüilizou subindo as escadas, a verdade era que Korone só falava o necessário com Ângelo.
-Azure eu... – Mika começou a falar vendo ele se aproximar com passos lentos, a reação comum seria sair correndo, mas ao invés disso ele estendeu a mão em sua direção, uma pequena caixinha preta.
-Feliz aniversário.
8. Deixa
-Um abraço?
-É.
Azure a tinha segurado com força entre os braços, uma mão em suas costas e a outra em sua cabeça, ela deu graças a qualquer deus que pudesse existir por ainda ser de dia e não ter presas, o pescoço dele ali no alcance da sua boca, as batidas do coração, tudo dizia pra ela morder. Mas era dia, o sol machucava seus olhos e estava paralisada por algum tempo.
-E ele não disse nada? – Beau era curiosa demais.
Até tinha dito algumas coisas, ele perguntou se ela não percebia que tinha que tomar mais cuidado, se cuidar melhor. Ela simplesmente deu risada como quem se desculpa sem palavras, ele se afastou um passo, olhares se cruzando e apenas aquelas palavras que pareciam tão simples, mas fizeram o coração dela saltar: Me deixa cuidar de você então. Mas a aula começou, então Beau não ficou sabendo de nada daquilo, nem que depois daquele abraço ela ganhou outro beijo de boa noite. O dia passou mais rápido do que ela pensava.
-Korone, eu já estou indo...
-Eu vou mais tarde, vamos jogar mais uma partida. – ele respondeu dando longos goles numa garrafa de água, lançou alguns olhares por cima dela, enxergando Azure que esperava no portão. – Vem cá...
-Que? – ele puxou ela num abraço, fingindo que cochichava algo no ouvido dela enquanto comia. Mais cedo que o normal, mas ela não se importou. – Bom jogo...
Ele não respondeu, simplesmente deu as costas voltando pro campo. Azure não falou nada, apenas caminhava ao lado dela com as mãos enfiadas dentro do bolso, uma vez ou outra comentavam algo sobre as músicas ou qualquer outra casualidade, pararam antes de chegar na casa dela. Um parque cujos balanços estavam vazios, o olhar de Mika se prolongou para o vai e vem das correntes.
-Ainda está cedo...
-É... – ela respondeu com um sorriso se sentando num dos balanços, o céu ainda nem tinha começado a mudar de cor.
-Mika, você pensou no outro dia?
-Que dia?
-Quando você machucou o pescoço. O que eu te disse antes de ir embora. – ele estava sério, de pé olhando pra ela no balanço.
-Pensei. – Ela respondeu baixando os olhos e balançando de leve. – Você sempre foi muito gentil comigo, Azure. Mas não precisa se preocupar tanto.
-Não é só preocupação, sabia... – Ele falou enfiando as mãos nos bolsos.
-Ahn?
Ele tomou coragem, a vergonha saiu de seus bolsos e segurou o balanço com as duas mãos fazendo Mika parar, ficou ali segurando com o rosto na frente do dela enquanto pensava se falava ou calava. Acabou falando enquanto sorria, o rosto levemente corado do sol depois da caminhada, a respiração normal e o coração aos saltos, ela conseguia ouvir as batidas mesmo de longe.
-Eu não esperava por isso até começar e te ver todos os dias, mas eu acabei gostando muito de você. Não consigo evitar me preocupar... – Ele sorriu sem jeito soltando o balanço – Eu só quero seu bem, mais nada. Eu sei que você e o Korone... – ela riu – O que foi?
Ela levantou do balanço, aos poucos se tornará natural passar o tempo com ele. Mas agora e de vez em quando, inesperadamente ele fazia algo que não era cotidiano ou comum, seu coração dava pequenos saltos e seu rosto ficava mais quente. Ela também acabou gostando muito dele, assim de uma maneira muito comum e tranqüila, mas o que ele queria dizer com Korone? Ela não pode evitar rir, eles só eram comida um pro outro.
-Eu só fiquei feliz, por você gostar de mim... – ela respondeu abraçando ele que abraçou de volta o batimento cardíaco numa mistura de choque e felicidade.
-Eu posso cuidar de você então? – ele perguntou ao ouvido dela.
-Pode...
-E ficar ao seu lado?
-Claro.
-Ótimo...
Ela nunca poderia ter imaginado que o beijo dele fosse tão doce e morno, era como sobremesa. Se despedirem ali mesmo, enquanto o céu se coloria para dar lugar ao por do sol, laranja e amarelo rodopiando, enquanto no horizonte subia o vermelho que a lembrava do jantar. Entrou em casa distraída, nem notou que Ângelo estava no corredor até estar a menos de dois palmos dele, apenas sorriu um boa tarde enquanto passava, mas ele a puxou pelo braço.
-Me deixa saber o motivo de tanta felicidade?
-Não é nada, eu só não lembrava de como era bom alguém querer cuidar de você.
-Não me diga que você arranjou um namorado? – ele perguntava olhando por cima dos óculos.
-Algo assim... – ela respondeu curiosa – Por que?
-Nada...
Acabou soltando ela, se refugiou na cozinha comendo alguns sanduíches enquanto Korone não chegava, repensando argumentos de como aquilo era mal pensado e de como era complicado ter um relacionamento com alguém quando se é um monstro. Quando Korone chegou decidiu testar seus argumentos com ele, mas era difícil falar com alguém que te ignorava por completo indo direto para a geladeira.
-Você sabia que a Rinmotoki arranjou um namorado?
-Você está surpreso? – o outro replicou tirando uma garrafa de suco inteira e a virando num gole só.
-Você não? – Ângelo pos de lado os sanduíches que fez e não conseguiu comer.
-Estou sim, considerando que ela é uma vampira já devia ter uns 4 no mínimo. – Korone respondeu fazendo pouco caso e dando risada. – Isso não tem nada a ver comigo.
-E se ele descobrir que ela é uma vampira? Já pensou nos problemas que isso pode causar?
-Não enche, Ângelo. Eu saio com pelo menos três garotas por semana e você não tem essa crise toda... Deixa ela e não vem choramingar pra mim.
Então ele não se importava? O mesmo olhar despreocupado e desinteressado que todas aquelas garotas recebiam Ângelo sentiu na pele, o outro não estava nem aí pra suas preocupações. Tirou os óculos e achou por bem ir se deitar e decidiu não pensar mais naquilo. A verdade é que estava mais que surpreso, a principio achou que ela iria começar a sair com Korone, mas não... Aparentemente era aquele outro cara que a via todos os dias, ou quem sabe alguém que ele nem sabia quem era. Dividiam o mesmo teto, mas não conseguia deixar de notar que pareciam não dividir a mesma vida.
7. Música maestro
-Ainda não encontraram ela?
-Não, mas ela não estava com ninguém da nossa turma naquele dia. – que bom, era só ela ter respirado perto do Korone e ele já seria o maior suspeito, apesar de toda noite ele poder se alimentar de Rinmotoki ele ainda saía com várias garotas. – Talvez seja um seqüestrador qualquer, você devia tomar cuidado...
-Eu?
-Mika, você tem aquela casa enorme e por mais que possa se cuidar de noite... – Beau estendeu a mão segurando o braço da amiga, as unhas cresceram arranhando de leve a pele da outra – De dia você continua sendo muito frágil, sabia?
-Não tem problema eu não volto pra casa sozinha...
-Que?
-O Korone entrou em todos os clubes de esportes possíveis, então ele acaba indo pra casa no mesmo horário que eu.
-Então o Korone te leva pra casa todo dia? – Beua perguntou num quase grito de espanto.
-Korone?
Ele tinha surgido do nada, o corredor vazio tinha ficado lotado numa fração de segundos e ali ao lado delas estava Azure de pé com uma pasta cheia de partituras. Como ela sempre saía correndo pra evitar sequer chegar perto do por do sol desde o incidente com o sorvete ele nunca a via indo embora com o Korone, mesmo que visse ela ignorava qualquer problema em relação a isso.
-É, ele mora comigo... – Beua beliscou a cintura de Mika com força que soltou um grito.
-O que ela quis dizer é que ela aluga um dos quartos da mansão pro Korone e pro Ângelo. O lugar é imenso, eu mesma devia alugar um quarto lá já que é bem mais barato... – Beau interveio com uma risada nervosa que Mika achou completamente sem propósito.
-Que bom, eu estava começando a ficar preocupado com você voltando sozinha pra casa, Mika. – Azure falou sorrindo, um sorriso gentil e simples. Preocupado com o que? – De qualquer jeito eu só vim lhe trazer isso. – ele estendeu a pasta para ela.
-São as músicas que eu vou cantar? – Mika perguntou olhando as notas, palavras e outras dezenas de símbolos, dos quais já ouvira falar, mas não lembrava o que queria dizer nem metade.
-São. Eu espero você mais tarde, então...
-Até mais tarde.
As aulas foram totalmente desperdiçadas, guerras em meio mundo de distância ficaram pra seus países de origem e números na lousa deixados para os matemáticos que os quisessem. Folheava as partituras enquanto imaginava que tipo de apresentação não seria aquela quando estivesse pronta dali a pouco mais de dois meses, muitas músicas do coro e algumas solo, um único dueto era o gran finale. Naquele dia todo o grupo de música ensaiava junto e por mais que tivesse aprendido muito ainda se sentia o patinho feio no meio de tantas vozes e instrumentos melhores afinados.
-Música, Maestro...
E começavam os ensaios, por algum motivo que ela não conseguia distinguir só conseguia acompanhar dois sons de todos os produzidos, o primeiro era o do piano com o qual Azure tentava lhe ensinar continuamente sobre notas, oitavas e tudo mais, o outro era o choro afinado do violino, que por mais que a música fosse agitada lhe parecia sempre um som triste. Ensaiavam apenas as músicas do coro, Azure lhe falou que podiam ensaiar o solo e o dueto depois, cantava distraída, sentindo o som do piano se entrelaçar ao violino, até que silêncio enchia a sala no final da música. A pausa era anunciada e um murmúrio ia crescendo dentro do silêncio.
-Muito bom pra primeira vez.
-Não foi tão mal assim, logo você vai acompanhar todo mundo...
-Se quiser eu posso te ajudar...
Palavras e mais palavras jogadas com as quais ela apenas sabia responder com gestos soltos, sua garganta estava seca e a água parecia sumir antes de causar qualquer alivio. Durante o intervalo os ensaios foram interrompidos, um professor mandou todos para a casa depois da noticia de que mais uma aluna sumiu. Grupos se formaram automaticamente com pessoas que moravam perto umas das outras, Mika continuou no mesmo canto onde estava juntando suas coisas.
-Mika, posso lhe acompanhar até em casa? – Azure que perguntava ao lado do piano.
-Não precisa se preocupar, ainda é cedo e não é longe. – Mika sorriu – E eu...
-Desculpa, eu me esqueci.
-Desculpas? – ela não entendeu nada.
-O Korone mora com você então ele deve lhe acompanhar, não é? Eu tinha esquecido, então não preciso me preocupar... – ele coçou os cabelos. – Até amanhã.
-Até...
Dobrou as partituras repassando mentalmente as letras das músicas enquanto caminhava até a saída do colégio, Korone não estava entre os que cruzavam os portões, nem procurou por ele. Mandou mentalmente o maestro começar a tocar e foi cantarolando enquanto caminhava, algumas esquinas depois a maioria já teria passado para outros caminhos, ela morava numa região diferente da maioria. Cantarolando baixinho, até a música acabar e restar o silêncio. O silêncio depois de uma pancada contra a parede, metal refletia a luz do sol.
-Fica quieta... – uma ponta de faca? Parecia. Nunca tinha visto aquele homem antes, mas não era diferente de qualquer ladrão ou mendigo de filme ou tv. – Se você gritar eu te mato entendeu? – a rua estava vazia de todos os lados, a ponta da faca no seu pescoço fez escorrer uma quantidade ínfima de sangue que lhe atiçou os sentidos.
-Sim... – foi só um murmúrio do silêncio, que foi quebrado pelo barulho de pancada.
Ela não prestou muita atenção pra entender como exatamente aquilo aconteceu, mas Azure tinha o dom de aparecer sem aviso e um gancho de direita capaz de fazer um homem mais velho quase cair depois de alguns passos pro lado. O homem saiu correndo, aparentemente não sabia lidar com mais de uma pessoa, a ponta de faca que saiu voando ficou no chão.
-Obrigada... – Mika falou vendo a mão dele marcada do soco, ele ficou quieto algum tempo até estender a mesma mão na sua direção – Algum problema, Azure?
-Você se machucou... – ele falou tocando de leve no pescoço dela, o cheiro de sangue e as veias dele pulsando ali pertinho dos seus olhos, em plena luz do dia ela sentiu uma fome noturna.
-Não é nada. Vai ficar tudo bem agora, obrigada de novo... – ela respondeu cobrindo o arranhão com a mão e dando alguns passos seguindo seu caminho. Ele a seguiu puxando sua outra mão, passou por ela e continuou caminhando a puxando. – Azure?
-Não tinha treino de basquete hoje, então o Korone já estava em casa. Quando eu soube decidi te acompanhar. – Ele parou em uma esquina olhando para os lados – Era para a direita agora, não é?
-É... – por algum motivo se sentiu uma sinfonia, sendo conduzida pelo maestro, ficou quieta o caminho inteiro depois dali.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
6. Calando a boca
-Desculpe, eu não vi o tempo passar. – Ele pediu enquanto pagava, de costas para ela escondia o rosto envergonhado.
-Tudo bem, é melhor eu ir pra casa... – ela falou pegando suas coisas e caminhando apressada até a porta.
-Espere. Está ficando tarde é melhor eu acompanhar você... Garotas não deviam andar sozinhas no escuro.
-Não tem problema eu...
-Por favor, é o mínimo que eu posso fazer depois de ter te segurado aqui até tarde. É minha culpa se você vai chegar atrasada em casa.
Ela não conseguiu mandar ele ficar longe, a distância do meio metro se manteve enquanto andavam lado a lado, ela apertando as passadas e ele parecia andar calmamente. Já devia ter notado a essa altura, Azure não era apenas um garoto comum com um rostinho bonito, ele também fazia o tipo saudável que pratica esportes e mantém a forma. Saudável, pessoas saudáveis costumam ter o sangue mais gostoso, Mika sabia disso por que o sangue de Korone, que era um exemplo de narcisista que cuida de si e cultua a si mesmo, tinha um gosto muito bom. Parou na frente do portão, virou para olhar para ele e pensou em dizer boa noite, mas sua boca tinha sido lacrada com a escuridão. Ele podia ver os dentes dela maiores do que deveriam ser, maiores do que eram em plena luz do dia, acostumada em comer assim que chega a noite a fome também já se fazia presente, era melhor ficar de boca fechada.
-Bem... Até segunda, Mika. – ele falou enfiando as mãos nos bolsos, Korone fazia a mesma coisa quando, mas enquanto Azure o fazia quando estava envergonhado, Korone se escondia quando estava nervoso.
-Até... – Mika murmurou quase sem abrir a boca, ele já tinha se virado de costas, mas então deu meia volta conforme o portão rangeu ao seu abrir.
-Mika... – ela simplesmente virou a cabeça na direção dele, não podia abrir a boca.
-Algum outro dia seria legal se a gente pudesse se ver de novo, fora do colégio... – Ele comentou e então desviou os olhos, o silêncio permaneceu, mas dessa vez não era só por que ela não queria mostrar as presas, mesmo que pudesse teria ficado quieta. – Boa noite...
Ele completou depressa indo embora depois de dar um beijo no rosto dela, a caminhada virou praticamente uma corrida fugindo do silêncio. Ela não mandou boa noite, continuou calando a boca enquanto entrava na própria casa chutando os sapatos para longe. Uma mão coçando a bochecha e a outra segurando a barriga que sentia fome, a sala de entrada parecia deserta, mas Korone estava deitado no sofá com uma revista masculina nas mãos, mulheres em posições estranhas na capa. Aquele tipo de coisa era rotineira quando você divide o teto com alguém como ele, por cima da revista o resmungo:
-Você chegou tarde hoje... Saiu com o Azure?
-Sai, ele me convidou pra...
-Não me interessa. – Korone respondeu depressa virando as páginas. – Você é meu jantar, não é como se eu me importasse com o que você faz desde que esteja aqui quando eu estou com fome...
-Quer comer? – Mika perguntou parada ao lado do sofá, os olhos meio perdidos e um meio sorriso, era típico dele falar aquele tipo de coisa. Era a mais pura verdade também.
-Não, eu não estou com fome. – ele respondeu assoviando para uma das páginas, ela já imaginava que tipo de coisa ele estava vendo.
-Boa noite, então... – ela respondeu passando direto até as escadas.
-Não está com fome? – o coração dela estava acelerado e os dentes doíam era verdade, ele já tinha notado que ela sempre comia depois dele, no começo da noite logo que acordava como vampira.
-Está muito quente, vou tomar um banho primeiro...
A água fria ajudou ela a se acalmar, os dias vinham passando tão naturalmente que ela nem notou até aquele boa noite o sorriso de Azure, o jeito como ele pedia com os olhos pra ela olhar de volta pra ele. Enquanto se secava sorria tranquilamente, Korone não guardava esse tipo de surpresas pra ela, ele era simples de entender. Comia quando tinha fome, falava quando tinha vontade, saía com quantas garotas lhe interessassem, vivia a boa vida de alguém despreocupado e desinteressado. Nem saiu da ducha, ainda com a toalha secando os cabelos que respingavam na camisola Korone a esperava do lado de fora, o mesmo olhar de um caçador olhando sua presa. Todos os monstros tinham aquele olhar quando estavam com fome, vampiros, succubus, lobisomens, todos...
-Aqui... – Mika falou estendendo o braço direito, Korone o empurrou para o lado com um tapa.
-Não... Aqui... – ele falou a puxando pela nuca fazendo com que por um momento seu coração desse um salto.
A boca dele grudou em seu rosto mastigando sua vida no mesmo lugar onde Azure desejara boa noite mais cedo. Aquilo só deixava o pescoço dele mais aparente, veias pulsando enquanto ele se alimentava, o corpo dela esquentou. Ela ignorou tudo isso esperando pacientemente ele acabar. Quando o rosto dele se distanciou foi sua vez de saciar a sede, bebeu a longos goles aquele sabor quente que vinha das artérias dele, sua íris âmbar se coloria de vermelho enquanto comia.
-Boa noite, Korone. – ela desejou caminhando na direção do quarto sem olhar duas vezes pra ele, era comum, rotineiro. Era igual café da manhã ou janta.
-Noite... – ele desejou esfregando a boca com a mão direita, lambeu os lábios e antes que ela sumisse decidiu continuar calando a boca.
Era tudo muito natural, afinal de contas monstros se alimentam daquele jeito e não é nada além de comida. Não adianta tentar enxergar mais nada, uma vez que ninguém filosofa sobre o que alguém sente enquanto encara um prato de macarrão, mas a naturalidade quebraria. Assim que Mika notasse que só era natural, se qualquer pedaço de pele servisse uma vez que de qualquer jeito é possível comer, mas por que aquele lugar da pele? Calando a boca ela deixou Azure ir embora e calando a boca Korone a deixou voltar a normalidade de coisas naturais do dia a dia de um monstro.
5. Mais uma vez
-E por que não? Se eu estou com fome é natural que eu me alimente. – ela só reparou agora que desde o primeiro ano ele aprendera a falar bem melhor, Korone parecia impaciente com os avisos de Ângelo.
-Porque alguém pode ver!
-E daí? No máximo vão achar que eu estou saindo com ela, não é como se eu ganhasse chifres e garras e cortasse ela em pedacinhos pra ficar mais fácil de mastigar...
-Mesmo assim...
-Não se preocupe, Ângelo. – Mika falou interrompendo a discussão dos dois – Eu vou tomar mais cuidado pra ninguém perceber. Além do que não é difícil ser discreto, tudo que o Korone precisa é de um pedaço de pele exposta pra poder se alimentar.
-Que seja... – Korone resmungou saindo andando e desaparecendo de vista.
-Rinmotoki...
Ângelo parecia mais sério do que ela lembrava, quando falou que ia começar a passar as tardes no colégio por causa do grupo de música ele quase surtou lembrando que pessoas como eles tinham que manter distância dos outros alunos. Mas o real surto veio quando ele soube que ela e Korone viraram a refeição principal um do outro, depois de se acalmar acabou dizendo que era uma boa idéia e que evitava problemas com as garotas que iam atrás dele, mas ainda assim ele parecia irrequieto.
-Você só vê o Korone como comida? – que tipo de pergunta era aquela?
-Ele também é meu amigo, igual você, Ângelo...
-É só isso então? – qual a razão da insistência?
-Só...
Ele não foi o único a surtar, Mika também teve que mandar Beau ficar quieta antes que ela anunciasse ao mundo que tipo de comida satisfazia as pessoas daquela classe. Mas não era esse o problema, a Succubus insistia que aquele tipo de coisa só era feita por casais de monstros ou relações mais profundas, criava teorias conspiratórias de como tudo aquilo já estava predeterminado quando eles se mudaram para aquela casa. Rinmotoki insistia que se fosse assim Ângelo também teria mudado, mas a verdade era que ela não sabia quase nada sobre Ângelo tirando o fato de que ele que cuidava pra que ninguém descobrisse que haviam monstros e tinha asas brancas.
-Eu não vou falar mais nada então, mas Mika... – Beau a encarou com olhos curiosos, se aquilo fosse um desenho ela ia adquirir orelhas de gato naquele momento.
-O que?
-Nada... Deixa pra lá... – a succubus deu um risinho que preocupou a outra.
Não queria pensar naquilo, afinal nem tinha no que pensar, Korone também não pensava em nada. As vidas continuavam iguais e os dias eram os mesmos, garotas gritando por ele e ela todas as tardes ouvindo a voz de Azure dizendo o que fazer e não fazer, se acostumou com o garoto que lhe ensinava sobre música de uma maneira tão tranqüila e natural que parecia que se viam há anos. Do mesmo jeito que se acostumou com ser puxada sem nenhum aviso para um canto e acabar saindo com os joelhos fracos, nem tinha notado que Korone só a procurava no entardecer ou de noite mesmo dizendo que tinha fome quando tinha fome.
-Mika? Mika você está me ouvindo? – Azure segurou a mão dela, tinha se distraído olhando pela janela o jeito como o vento soprava.
-Desculpa, o que você estava dizendo?
-Você já deve estar ficando cansada da minha voz depois de três semanas, que tal fazermos uma pausa hoje?
-Mas eu ainda não alcancei os outros... – Mika comentou puxando o caderno onde anotava coisas que nunca lia de novo como notas, teorias e outras coisas que pra ela sequer faziam sentido.
-Tudo bem, nós continuamos semana que vem. Já é sexta feira você deve estar cansada...
-Mas...
-Que tal irmos tomar um sorvete? – ele propôs com um sorriso.
-Sorvete? – ela piscou duas vezes, meio que na dúvida, meio que curiosa.
-É, está quente ultimamente e é aqui perto, como estamos parando mais cedo você não vai se atrasar pra voltar pra casa, não é?
-É...
-Então vamos... – ele se levantou com um sorriso animado. – Segunda nós ensaiamos...
Não falou nada, ela simplesmente se levantou e seguiu ele há pouca distância. Tirando as vezes em que lhe passava algo ou chamava a atenção de volta a realidade Azure ficava a pelo menos meio metro dela e ela dele, não calculadamente, mas simplesmente faziam assim. O sorvete apesar de gostoso, assim como muitas outras coisas que ela comia de dia enquanto o sangue do seu pai dormia, não lhe satisfazia em nada. O silêncio parecia se alongar entre eles, coisa que nunca acontecia uma vez que entre lições e explicações Azure sempre estava falando algo ou ouvindo ela tentar imitar uma nota ou duas.
-Você está se sentindo mal aqui comigo, Mika? – Azure perguntou olhando pra ela do outro lado da mesa, a sundae deixado de lado e o rosto apoiado na mão como que tentando segurar a cabeça para que não rolasse. Estava sério, meio desolado.
-Não, nem um pouco. – Ela respondeu tão depressa que pareceu mentira, apesar de não ser.
-Desculpe, eu só achei que você precisava descansar um pouco. Você fica tão séria quando está comigo e sempre que eu vou lhe chamar perto dos seus amigos você parece tão feliz... – do que diabos ele estava falando ela não fazia idéia. – Acho que você ainda deve me achar chato por ter te arrastado pra tudo isso.
-Não tem nada a ver! – Mika respondeu um pouco mais alto – Eu só... Eu só acabo me concentrando demais por que quando eu aceitei eu não imaginava que eu ia estar num nível tão deprimente comparada com os outros. Eu só queria parar de me sentir inútil o mais rápido possível, por isso eu levo tão a sério.
-Que alivio, eu achei que você não gostasse de mim. – Azure sorriu, ela não pode evitar sorrir de volta. – É a primeira vez que eu vejo você sorrindo pra mim...
-Eu não queria ter passado essa impressão mau humorada. Segunda eu... Eu vou tentar relaxar um pouco quando começarmos a ensaiar mais uma vez.Ele respondeu que bom sorrindo também, no fundo ela não ligava muito pra música ainda, por mais que tivesse se tornado parte natural de seus dias. Mas aquele sorriso quente em contraste com o gelo que o sorvete deixava na boca, ela queria ver aquilo mais uma vez. Mas, sua boca se fechou quando seus olhos se abriram para o exterior.
4. Até amanhã
-Rinmotoki, não esqueça sua garrafa!
Ângelo gritou arremessando a garrafa de metal para ela, era uma garrafa térmica para que sua refeição permanecesse sempre quente. Era pra evitar sentir fome quando não devia ou atacar alguém, claro que não podia abrir a garrafa cheia de sangue quando bem quisesse e felizmente não costumava sentir fome antes do anoitecer quando geralmente já estava em casa ou voltando pra ela. A vida de todo dia parecia simples, cada um com suas atividades e manias, numa casa tão grande que se estivessem mau humorados nem precisavam se cruzar, tudo ali também era cuidado por um mordomo medonho que eles nunca viam, mas que limpava tudo enquanto eles estudavam.
-Com licença, Mika? – virou distraída antes de poder iniciar sua caminhada de volta pra casa.
-Eu?
-Eu sou, Azure da sala A. Você por acaso faz alguma das atividades extracurriculares?
-Não. Se é só isso eu... – levou um empurrão no braço de Beau.
-Eu vejo você amanhã, Mika! Tchau, tchau, Azure!
-Tchau, Beau.
Por que ela não estava surpresa? Claro que todo mundo conhecia a Beau, geralmente quando um desconhecido lhe chamava era pra pedir para falar algo para a amiga de números avantajados e rosto pecaminoso, felizmente a inquisição tinha passado e não caçavam mais mulheres bonitas. Ficou por um momento tentando entender o motivo do empurrão, fora o garoto completamente comum na sua frente de cabelos castanhos bagunçados e olhos castanhos escuros. Comum? Talvez fosse imaginação dela por ter amigos que eram monstros o dia todo, diferente dela que era só de noite. Azure seria o que muitas chamariam de um cara lindo.
-É que o grupo de teatro estava com um projeto que pediu a ajuda do grupo das aulas de músicas que eu represento... Mas nós precisávamos de mais garotas. – Ele coçou os cabelos e depois juntou as mãos como quem pede, por favor – Eu já falei com todas as outras turmas e até com a Beau, você é minha última esperança.
-Mas eu não sei tocar nada... – Isso e ser a última alternativa em caso de emergências não soava tão divertido assim.
-Eu posso te ensinar os princípios musicais, mas você não precisa tocar nada.
-O que exatamente você quer de mim, então? – a pergunta era natural.
-Sua voz.
-Eu não sei cantar também... – Mika respondeu olhando para o lado, não conseguiu conter um suspiro, não era particularmente talentosa em nada. Tirando o fato de que na verdade era um monstro, era comum em tudo.
-Poderia tentar antes pelo menos? Se não der certo eu serei o primeiro a lhe dizer pra ir embora... – Azure puxou a mão dela a fazendo voltar a olhar pra ele, seu pedido era sincero. – Mas eu queria muito que você tentasse e não acredito que eu vá ter que lhe mandar embora. Por favor...
-As atividades de Música são duas vezes por semana, não são?
-São.
-Se eu me lembro bem, os projetos tendem a ser trimestrais, ou semestrais. De qualquer jeito como você espera me ensinar a cantar em tão pouco tempo? – Ela queria muito convencer ele racionalmente a desistir da idéia.
-Eu pretendo passar as tardes com você. Se você concordar, claro... - ele corou por um momento notando o duplo sentido da frase – Eu pretendo passar todo o tempo possível com você, ensinando e ensaiando até que você consiga acompanhar todo mundo apenas nos dois dias por semana. Ou você tem compromissos à tarde?
-Só E.F. toda quinta, mas de qualquer jeito eu tenho que estar em casa antes do poente.
-Então eu me comprometo a te liberar cedo. Quando podemos começar?
-Mas eu não disse que...
-Seus olhos já me disseram. – ele estava certo, ela já tinha meio que aceitado sem dizer.
-Amanhã... – ela respondeu se virando e começando a andar.
-Muito obrigado, Mika!
Ela simplesmente acenou com as costas da mão, foi andando cabisbaixa e até esqueceu de murmurar até mais tarde quando passou por Ângelo e pelo grupo barulhento que bajulava Korone. Foi andando pra casa com passos curtos que nem notou a noite cair no meio do caminho, tinha andando para sabe-se lá onde e a tarde inteira passou sem ela perceber. Sua garganta estava seca e procurou em vão com as mãos sua garrafa, mas não estava lá, sentou na entrada de uma loja fechada por um momento para tentar se localizar, nunca tinha visto aquele bairro antes. Logo na frente de onde estava uma placa luminosa indicava um motel, os ombros doíam de carregar a mochila tanto tempo sem notar e as solas dos pés começavam a dizer que tinha andado demais.
-Nessas horas eu queria ser o Ângelo... – murmurou abraçando as pernas, seria tão mais simples poder voar de um lado para o outro apesar de todo aquele cuidado para não ser visto e tudo mais.
Alguém saiu do motel, correndo e gemendo como quem chora, mas ela não prestou muita atenção até que outra pessoa saiu logo em seguida. As mãos nos bolsos da calça preta e a mochila jogada num só ombro, conhecia aquele jeito de andar como quem olha todos de cima, levantou a cabeça a tempo de ver Korone do outro lado da rua. Nem notou que ao seu lado já aparecia um grupo inteiro de homens mau encarados, apenas encostou o rosto no joelho e fechou os olhos engolindo em seco, estava com sede e cansada.
-Idiota, vindo num bairro desses sozinha... – era a voz dele resmungando, mas não sentia mais o chão frio sob ela ou a parede atrás, abriu apenas uma brecha dos seus olhos, a tempo de ver o céu noturno atrás do rosto dele, sendo cortado por movimentos rápidos de asas de penas negras. O rosto dele tinha marcas, como tatuagens tribais.
-Korone... O que você fez? – Mika perguntou murmurando, a garganta ardia de sede.
-Nada, cala a boca e dorme...
Nem sentiu quando chegou em casa até ser colocada na cama, o colchão fofo e o travesseiro amigos lhe mandavam continuar descansando, enquanto o estomago lhe pedia pra acordar e ir comer. Segurou ele pelo pulso da camisa, perguntando com os olhos já que a voz não saía. Ele podia parecer qualquer coisa pra qualquer um, mas já era a segunda vez que ela via um lado tenro dele.
-Energia de humanas não me satisfazem quase, eu mandei ela embora antes que acabasse machucando ela já que ainda estava com fome... – Ele explicou virando o rosto e sentando na borda da cama – Quando eu saí você estava do outro lado da rua por qualquer motivo e eu tive que deixar claro que você não estava sozinha... – ela não tinha notado, as marcas na mão dele de quem socou alguém. – Depois disso te trouxe pra casa, você não devia andar em bairros perigosos sozinha...
Quando ele virou pra olhar ela, os olhos fechados o fizeram sentir um misto de raiva e alivio, não sabia se queria alguém achando que ele era um bom garoto. Deixou o quarto em silêncio se trancando no próprio, sentado na escrivaninha mandava sua fome calar a boca. Ouviu a porta se abrindo e quando se virou quase a chamou de idiota de novo, mas a visão dela na camisola depois de tomar um banho para acordar o deixou quieto. Ela lembrou por que ficara tão brava com a fome, antes ela podia ter o sangue que quisesse que um conhecido extraviava de um hospital, mas ele sumira e agora tinha que pensar em outro jeito... Fome, ouviu ele falando em fome antes de adormecer de novo.
-Korone... Você ainda esta com fome não está? – ela perguntou encostada no portal, nem dentro nem fora do quarto esperando a resposta.
-Eu não preciso mais dos seus favores, Mika.
-Vamos... Fazer um acordo? – ela perguntou desviando os olhos, o fato de não ter deixado o portal é que estava se apoiando nele se não ia cair.
-Se você se alimentar de mim, vai ficar satisfeito sem machucar ninguém por que eu não sou tão fraca quanto uma humana... E eu também... – Olhou pra ele por um segundo, os olhos dele estavam sérios, nunca o tinha visto sério antes. – Preciso me alimentar e não quero machucar ninguém...
-Achei que você tinha seu estoque de comida.
-Tinha, mas parece que não vou ter mais... – tomou coragem de dar passos na direção da escrivaninha, parou apoiada nela quase que sentada. Não olhava pra ele, apenas esperava uma resposta, sua boca doía na urgência de cravar os dentes em algo.
-Se é assim... Você vai ter que me deixar comer a hora que eu quiser, meu apetite não é exatamente regular e pontual. – ele falou com um sorriso, o mesmo sorriso de valentão que tinha sempre.
-De acordo...
-Claro que quando você precisar, eu também não vejo problemas. – ele soltou um longo suspiro virando o rosto na outra direção – Só tente ser mais gentil da última vez achei que você fosse arrancar minha cabe...
Ela já tinha apoiado as duas mãos nos braços da cadeira e se inclinado sobre ele, as presas doloridas alcançando o pescoço pensando apenas em matar aquela sede. Ele esperava pela dor, a antecipação que antes esboçou uma careta ao sentir ela cair sobre ele sumiu dando lugar a um calor que se alastrava, sentiu seus pelos arrepiarem e os sentidos girarem, seu coração acelerou... Aquilo, não era dor.
-Eu não avisei? Só dói... Da primeira vez... – ela murmurou lambendo os lábios ainda inclinada, o corte se fechou devagar depois voltou a ficar de pé.
-Bom saber... – Ele respondeu respirando mais fundo do que o normal, puxou o braço dela e mastigou bem próximo a pele aquela coisa invisível, a única coisa que ela sentia era o calor da respiração dele. E ele o gosto amargo e doce da vida ela. – Boa noite...
-Até amanhã...
3. Bem vindo ao lar!
- Você tem certeza, Rinmotoki?
- Meu pai me deu aquela mansão enorme eu sozinha não consigo ocupar nem a metade, não vejo problemas em vocês ficarem por lá até conseguirem achar um lugar para ficar...
- Mas pode demorar, eu não quero incomodar... – Ângelo respondia com o rosto corado.
- Eu não preciso de favores... – Korone resmungou virando a cara para a janela, o intervalo logo ia acabar e depois dele as ultimas aulas do dia e aí ele teria que voltar para uma casa que nem existia mais.
- Você devia pelo menos agradecer a gentileza, Korone!
- Deixa ele, Ângelo. Bem, vocês sabem onde é quando quiserem a porta vai estar aberta pra vocês eu vou voltar pro meu lugar.
Por que ela estava preocupada? Não estava, era simplesmente uma questão prática. Eles precisavam de um lugar para ficar e ela tinha aquele espaço inútil sobrando, mesmo horas mais tardes ela só iria se dar conta do que ela estava fazendo depois que Beau berrasse em seus ouvidos interminavelmente se ela era completamente maluca.
-VOCÊ SIMPLESMENTE NÃO CONVIDA DOIS HOMENS PRA MORAR COM VOCÊ COMO SE FOSSE O MESMO QUE EMPRESTAR UMA CANETA!
-Para de gritar, Beau! – Mika pediu tapando os ouvidos.
Beua era sua melhor, única, amiga mulher naquela escola, também fazia parte da turma B constituída por pessoas muito esquisitas ou monstros. Beau era inegavelmente qualquer coisa menos humana, qualquer idiota notaria isso ao ver que homens faziam reverências quando ela passava, literalmente. A mãe da garota de cabelos castanhos cacheados era uma succubus, o pai dela ninguém sabe.
-Eles não tem onde ficar, não me custa nada deixar eles usarem os cômodos que eu não uso lá de casa... – Mika replicou assistindo a outra mexer e remexer em seu cabelo, sinal de perturbação.
-Você não entende mesmo o quão inocente você está sendo. Ainda assim vão ser dois homens sob o mesmo teto que você...
-Eles são meus amigos, Beau. Não é como se eu estivesse levando meu namorado pra morar comigo ou coisa assim... – ela não era inocente, apenas confiava neles, eram seus amigos e bem. Ângelo demonstrava mais interesse em pedras do que em garotas, enquanto Korone já tinha garotas demais com quem se ocupar. – De qualquer jeito o Ângelo está hesitante e o Korone já disse que não quer favor nenhum...
-Aquele insensível, podia pelo menos agradecer... – Beau rangeu os dentes.
-Ele não é insensível, só é orgulhoso...
-Por que você não cobra aluguel?
-Eu não preciso de dinheiro... – Mika respondeu.
-Eu sei, mas assim não vai ser um favor e sim um contrato.
Era uma boa idéia, era mais rápido do que procurar outro lugar para alugar da noite para o dia e ao mesmo tempo tirava o clima de caridade. Ficou repensando isso durantes as aulas, na tarde tinha educação física até tarde, depois poderia ir pra casa lembrando de como era bom ter Beau por perto, ela não era apenas bonita o bastante para deixar qualquer um ao seus pés, mas também tinha alguma coisa na cabeça. Antes da aula falou com Ângelo que mais tranqüilo aceitou feliz, mas Korone cercado de sua multidão comum de garotas parecia inatingível especialmente enquanto praticava esportes.
-Onde você está indo, Mika? – Beua perguntou jogando a mochila por cima dos ombros, o suor da educação física dava a ela um ar que fazia a maioria querer cuidar dela.
-Eu esqueci minha blusa na sala, eu te vejo amanhã!
Korone passou na frente dela, apressado mandando duas garotas irem pra sabe-se lá aonde com raiva enquanto entrava no prédio do colégio nervoso. Ela não podia evitar, mas estava indo no mesmo caminho que ele, quando abriu a porta da sala foi a tempo de ouvir um grito enraivecido de “o que você quer” e fitar um rosto cansado e franzido pela raiva.
-Eu esqueci minha blusa... – Mika respondeu caminhando até sua mesa enquanto ele estava recostado em outras duas mais a frente.
-Eu não sabia que era você. – ele respondeu sem fôlego.
-Você está pálido...
-Não enche...
-Julgando que você tem tido problemas na última semana, acho que sei o porquê.
-Mandei não me encher... – Ele falou se levantando, os olhos já eram estreitos, como olhos orientais, ficaram mais ainda enquanto ele encarava com raiva.
-Você não costuma mandar suas fãs pra longe, deve estar faminto... Por isso veio correndo pra cá, pra não acabar passando da conta com elas e levar bronca do Ângelo...
-CALA A BOCA!
Ela nunca tinha notado que sua carteira ficava no fundo da sala até aquele momento, ele foi parar na frente dela muito rápido a empurrando contra a parede, suas costas doeram e isso transpareceu no seu rosto, os braços dele fechavam a saída apoiados do lado de seu rosto contra a parede. Ele estava pálido e sem fôlego, um reflexo opaco do rosto sorridente e sedutor de quando o conheceu.
-Você se alimenta da energia das pessoas, não é? Igual a Beau... – Mika comentou, tanto succubus quanto Korone que ela não sabia o que era se alimentavam da energia das pessoas. Beau roubava a energia de seus namorados através dos lábios, mas Korone parecia poder devorar energia de qualquer parte do corpo. – Você devia ser mais responsável, vir faminto pra um lugar cheio de humanos. Pode devorar a minha energia se quiser...
-Eu já falei que não quero favores. Por que você não cala a boca quando mandam? – ele falou se afastando um passo, mas ela o puxou de volta pela camisa.
-Se você sair daqui desse jeito vai atacar alguém e vai sobrar problemas pra todo mundo, não é um favor pra você. Mas pra mim também... Além do mais eu...
Ela calou a boca, ele a empurrou de novo e sua cabeça bateu na parede, as mãos que estavam no seu ombro acabaram rasgando sua camiseta, ali no ombro mesmo ela achou que ele fosse cravar os dentes. Mas apenas abria e fechava os lábios como quem mastiga algo invisível. Os joelhos dela ficaram mais fracos, foi deslizando na parede e ele ia junto com ela, mastigando e engolindo aquilo que não dava pra enxergar.
-Korone... – a escuridão entrava junto com a noite e as presas dela cresciam.
-Não tem nada a ver com o Ângelo. Eu não quero machucar ninguém. – Ele resmungou soltando os braços dela, as mãos dele deixaram marcas vermelhas – Sua idiota, indo atrás de um monstro faminto desse jeito...
-Precisa mais do que o jejum de um garoto pra me causar problemas. – Mika respondeu sorrindo com suas presas, depois que a noite cobriu o céu se sentia bem melhor, era como acordar de novo. – Você disse que não queria favores...
-E não quero...
-Então ótimo... – o puxou pela camisa de novo e no rosto dele só sobrou a surpresa e a dor de ter a pele dilacerada na altura do pescoço, ela ficara com fome também depois daquilo. A dor aguda o incomodou, mas agüentou calado por orgulho. Não queria mesmo favores. – Agora não é um favor, é uma troca...
De algum jeito o convenceu, sem saber ao certo como. Argumentos de como ele pagaria por isso e aquilo, acordos sobre ele escolher onde ficar e não ter que dar satisfações, afirmativas sobre como seria mais prático. E um pequeno desabafo, que se estivessem todos por perto, era pouco provável que aquilo acontecesse de novo, afinal Ângelo não ia deixar e ela também podia tomar conta dele. A resposta foi um ou dois palavrões enquanto ele voltava a mostrar que não precisava de ninguém, e muito menos de favores, mas acabou indo parar naquela casa.
-Bem vindo...